Velhos bons tempos

setembro 18, 2008 at 4:45 pm 9 comentários

por EdSom

Mais um fim de expediente e você aí apertando F5 a cada dez minutos para conferir as atualizações do WarpZona e pensando: será que hoje tem uma nova edição da coluna favorita dos jogadores das antigas?

Se ajeite na sua cadeira que a coluna Velhos bons tempos de hoje, no embalo do livro sorteado na promoção e na expectativa do lançamento de Street Fighter IV, mostrará como uma pessoa pode aprender e crescer com os games. No nosso caso, são cinco lições de vida decorrentes da minha vida como jogador de Street Fighter II.

Abaixo a primeira parte, sobre amizades e brigas. As demais partes serão publicadas semanalmente, às sextas-feiras. Não deixem de acompanhar e de opinar na seção de comentários.

Amigos, amigos, negócios à parte

A personagem principal de hoje foi um dos grandes amigos da época de adolescente. Estudamos juntos da sexta à oitava série, e fizemos os três anos do segundo grau na mesma escola, em turmas diferentes. Aluno aplicado (tanto que hoje é formado e leciona), amigo de confiança, engraçado e bom jogador de Street Fighter II, passamos muitas tardes na Toinha (a mesma citada pelo marmotagem…) duelando às mirradas horas que nossos parcos recursos permitiam (Toinha era a irmã do Minduim, personagem da nossa coluna anterior, dona da locadora onde fiz grandes amizades, muitas das quais conservo até hoje).

Ele sempre jogava com o Ken, e tinha uma particularidade curiosa: só conseguia soltar um Hadouken ou um Shoryuken da esquerda para a direita. Do lado inverso não tinha jeito, podia esfregar o controle à vontade que saia um ou outro, não mais do que isso.

Certa vez, finalizado mais um trabalho escolar na biblioteca, no período da tarde (estudávamos de manhã), ele me chamou para o desafio: “Edson, vamos na Toinha jogar Street!”. Retruquei: “Até queria, mas não tenho um centavo!”. Ele emendou: “Minha mãe meu deu uma grana. Dá para jogar duas horas!”. Duas horas de Street sem próximas? “Simbora”, falei sem pestanejar.

Naquela época jogar sem próximas era evento raro. Sempre que alguém pagava para jogar vinham dois ou três “pescoçar” uma partida ou outra, formando as famigeradas filas de próximos. O que era na verdade muito bom, pois é sabido que sem próxima o oponente ou não joga sério ou desiste logo se estiver perdendo muito. Mas sem próximas dava para treinar os golpes e refinar à técnica, por isso às vezes jogávamos no período oposto.

Chegando lá, como menino com um bolo só para ele, eu nem sabia com que personagem começar. Jogávamos mais ou menos no mesmo nível (se ele se mantivesse sua personagem no lado certo, claro), mas ao contrário dele, eu gostava de tentar todas as personagem. Combinei com ele: “Vou começar pelo Ryu, que é o primeiro da lista. Quando perder troco para o próximo e assim vai”. Ele falou: “Vou com o Ken mesmo”. “Por mim tudo bem”, finalizei.

Começada e disputa, golpes para cá e para lá, tudo ía bem. Ganhei as primeiras partidas, mas tudo corria na santa paz. Ele foi percebendo minhas manhas e começou a revidar e tentar reverter o quadro. Eu, marotamente, toda vez que minha barra de life passava da metade eu usava um golpe ou pulava por cima dele, trocando os lados, o que me dava a vantagem necessária para virar e vencer o round.

Outra coisa que é de conhecimento de todos que jogavam Street é que quando se está vencendo o bom é ficar calado para não irritar o adversário. Então fomos jogando em silêncio, mas ele não escondia a raiva interior em seu semblante. A cada derrota ele ficava mais vermelho e se compenetrava mais na partida, tentando ao máximo defender o seu lado, tornando as partidas cada vez mais difíceis para mim. O problema é que já tínhamos jogado uma hora e meia e eu ainda não tinha perdido nenhuma, jogando ainda com o Ryu.

Até que então eu fui derrotado e, conforme o combinado, ia trocar de personagem. Ele revidou: “Não valeu, você deixou! Pega o Ryu de novo!”. Fiquei surpreso, pois tinha perdido legitimamente. “Não entreguei, perdi mesmo”, tentei argumentar. Ele não aceitou minhas palavras e lá fui eu com o Ryu de novo, e de novo perdi. Aí ele se revoltou de vez.

“Caramba, falei que não era para entregar!”, berrou nervoso. Eu falei: “Estou jogando sério! Você que ganhou, não entreguei nada!”. Ele nem quis conversa: “Pega o Ryu de novo!”. Vi que não tinha alternativas: tinha que ganhar dele de todo jeito, mas ele estava afiado e jogando bem demais. Fiz de tudo e venci por pouco, mas ele ficou mais vermelho do que antes e confirmou a próxima partida. E perdi de novo.

“%$*&!”, ele xingou. “Tá de sacanagem comigo? Pára de entregar! Pega o Ryu de novo!”, ele bradou a quem quisesse ouvir. Eu estava numa sinuca de bico: se ganhasse, ele ficaria mais nervoso ainda, se perdesse, a amizade acabaria aí. E não era questão só de querer ganhar, eu tinha que conseguir vencer se fosse o caso. O que fazer agora?

Na famigerada partida que poderia me custar uma boa amizade, fui sem saber bem o que fazer. Pensei comigo: “Vou ver se venço um round, para ver como ele reage”. Mas não teve jeito e perdi, e ele me olhou de um jeito de que nossa amizade seria decidida no próximo round.

Segundo assalto, parti para o tudo ou nada. Logo de cara avancei e dei um balão nele, jogando-o para o outro lado da tela. Ele ficou meio abalado com a manobra surpresa e, sem os melhores golpes disponíveis (por falta de habilidade) para contra-atacar, não pode fazer muita coisa. Assim faturei o segundo round com relativa facilidade, o que na cabeça dele era a confirmação que eu havia mesmo entregado as derrotas anteriores.

Terceiro e derradeiro round, ainda sem saber se devia vencer ou perder, chega a Toinha e fala: “Acabou o tempo, meninos!”. Eu, que sempre pedia “só a última” larguei logo o controle na mão dela e falei para o meu amigo: “Amanhã a gente joga de novo” e fui embora, escapando daquela situação complicada.

No outro dia, já na escola, estava apreensivo em como ele reagiria ao me ver. Para minha surpresa, meu amigo me cumprimentou como de costume e não mudou em nada o tratamento que tinha comigo, nem naquele dia nem nos dias seguintes, mantendo intacta nossa amizade, o que foi para mim uma grande alegria. Ele nem mesmo comentou mais sobre aquela bendita tarde, e jogamos muitas outras vezes juntos. Entendi então que uma pessoa pode se irritar com a outra por algum motivo, seja profissional, seja por opinião, seja o que for, sem tomar isso como algo pessoal.

Mas quase perco um amigo de bobeira.

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ARTE DE QUINTA – Decap attack Projeto C-macc’s – Jogue tudo em uma máquina!

9 Comentários Add your own

  • 1. Fernando Cabelo  |  setembro 18, 2008 às 5:57 pm

    :-) Muito bom o texto. Tive situações parecidas, como por exemplo, ter sido o primeiro a aparecer na porta da locadora para alugar Street Turbo do Snes ou as inúmeras partidas que joguei Street Alpha numa sorveteria perto de casa.

    Resposta
  • 2. EdSom  |  setembro 18, 2008 às 8:14 pm

    Oi Fernando,

    obrigado pelo apoio. Como relatei no início, Street Fighter II foi um jogo que acompanhou minha adolescência inteira, e tento muitas boas lembranças das partidas e dos amigos. Tanto que é a primeira vez que vou fazer uma Velhos Bons Tempos em capítulos: este é o primeiro de cinco. Semana que vem publico o número dois.

    Resposta
  • 3. krycov  |  setembro 19, 2008 às 12:46 pm

    RSRSRS… Eu lembro dessa… mas ele sempre foi temperamental no que faz mesmo… não era só no Video Game não… o importante realmente é saber separar as coisas e não levar para o pessoal… coisa que ele fazia muito bem… realmente era um grande amigo e parceiro de aventuras na nossa época…
    Outra coias Edsom… só cinco? SF entre agente da pra fazer uma série de TV maior que os Simpsons.. rsrsrs… é só aprofundar… ah!! e não vale deixar a sua história com SF não… a que você foi a bola da vez depois das aulas hein?!? aehahehaheh

    Vlw

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  • 4. Pedro Ivo  |  setembro 21, 2008 às 2:25 am

    Cara, isso é o que eu chamo de decisão!

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  • 5. Velhos bons tempos « Bem Vindo a WarpZona!  |  setembro 26, 2008 às 12:04 pm

    [...] mesmo clima de saudades a coluna Velhos bons tempos de hoje apresenta o segundo capítulo da saga das lições de vida que aprendi enquanto jogador de Street Fighter II, tratando do mais nobre dos [...]

    Resposta
  • [...] 01×07 – Especial Street Fighter II – Parte 1: Amigos, amigos, negócios à parte: na primeira parte do especial sobre as lições de vida que aprendi jogando Street Fighter II, relato uma das situações mais difíceis que já passei, onde um erro poderia estragar uma amizade de anos! [...]

    Resposta
  • 7. Velhos bons tempos « Bem Vindo a WarpZona!  |  abril 17, 2009 às 12:05 am

    [...] sempre ia à locadora da Toinha para jogar Spiderman and X-men: Arcade’s Revenge, do Super NES. Para quem não conhece, é um [...]

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  • 8. Velhos bons tempos « Bem Vindo a WarpZona!  |  maio 22, 2009 às 1:40 am

    [...] série sobre as lições que aprendi jogando Street Fighter II (clique nos números para as partes 1, 2, 3, 4 e 5), a coluna Velhos Bons Tempos retorna às suas origens, relatando as histórias sobre [...]

    Resposta
  • 9. Velhos bons tempos « Bem Vindo a WarpZona!  |  junho 26, 2009 às 1:29 pm

    [...] anteriores. Nas férias escolares daquele ano, Krycov (o do Warp TV), Minduim (o irmão da Toinha) e o nosso amigo da primeira coluna, o convicto, começamos uma campanha de Golden Axe, mestrada [...]

    Resposta

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