Velhos bons tempos

setembro 26, 2008 at 12:04 pm 10 comentários

por EdSom


Mais uma sexta e você aí, perdido, se lembrando da época que brincava nas ruas, correndo de um lado para o outro, pulando, socando o ar e gritando: Hadouken!

No mesmo clima de saudades a coluna Velhos bons tempos de hoje apresenta o segundo capítulo da saga das lições de vida que aprendi enquanto jogador de Street Fighter II, tratando do mais nobre dos sentimos.

Sorte no jogo, azar no amor

O lançamento de Street Fighter II impulsionou o fenômeno social das locadoras nos bons tempos. A molecada ia em peso para a locadora depois das aulas para jogar, conversar, assistir as partidas e contar vantagens. Quem não frequentava o local corria o risco de ficar “desenturmado”.

Com o passar do tempo, começaram a se formar dois grupos: os que se dedicavam ao Street Fighter II, procurando se tornar cada vez mais habilidosos, e os que jogavam socialmente, para se divertir, sem maiores pretensões. Além disso, ao contrário dos rótulos que os jogadores de videogame costumavam (e infelizmente ainda costumam) receber, a rapaziada também paquerava e namorava.

E valia a máxima que dá título desta seção: quanto mais habilidoso era o jogador no Street, menos sorte ele dava nas paqueras, e vice-versa. Seja pelo menor tempo que eles dedicavam aos xavecos, seja pelo estigma de “meninos” que carregavam (naqueles tempos, como hoje, as moças preferiam os rapazes mais velhos), os bons jogadores namoravam e eram namorados, só que em escala muito menor do que os patos.

Porém havia uma “irritante” excessão à regra: um amigo meu, que era conhecido por ser bom atacante no futebol, driblador habilidoso, além de muito engraçado. Ele detonava jogando com o Ken e era sucesso absoluto com as meninas da turma. Sempre estava no pódio da eleição de menino mais bonito da turma que as moças promoviam semanalmente, e muitas delas queriam namorá-lo.

Ele era também muito tímido, de modo que embora tivesse muitas propostas, não aceitava quase nenhuma (até porque todas as moças “menos bonitas” corriam atrás dele…). Sendo assim, ele “irritava” os bons jogadores que perdiam para ele nos dois aspectos, e também os paqueradores, que também ficavam para trás nos dois quesitos. Seria ele imune ao lendário dizer?

Tudo parecia indicar que sim, pois a moça mais inteligente, uma das mais bonitas da turma, que era tímida e não dava confiança para ninguém (apesar de ser assediada por quase todos), dava sinais que se interessava nele. E descobri, numa partida de Street, um fato interessante. Na ocasião, perguntei a ele, ao final de um round: “Rapaz, com esta mulherada toda atrás de você, porque você não namora nenhuma?”. Ele tentou desconversar, mas com minha insistência ele falou: “E que eu gosto de uma em particular, que não me dá mole.”. E essa em questão era a moça que citei no início do parágrafo.


“Não te dá mole? Tá certo que ela não faz como as outras, mas que gosta de você, gosta!”, falei a ele. Ele não quis acreditar muito, e passei a observá-la, de modo que a cada dia tinha mais certeza. Mesmo ele não querendo ver a verdade, um dia tivemos todos a confirmação. Ela, vencendo todo o nervossismo, se aproximou dele num intervalo e falou: “Preciso conversar com você depois da aula”. Naqueles tempos se uma moça falasse que precisava conversar com o rapaz era namoro certo.

Nas aulas que seguiram ele confessou o acontecido para nós, que demos apoio total. Combinamos que iríamos para a locadora um pouco antes, deixando ele para trás, dando oportunidade para ela se aproximar. Tímido desmedido, ele ficava ponderando inúmeras possibilidades de não dar certo, dela não ir, dela não querer, etc… Falamos: “Deixe de bobagem. Vamos ficar na locadora, jogando Street. Quando você deixar ela em casa você volta e conta para gente como foi”. Deixar a moça em casa era um dos papéis dos namorados daqueles tempos.
Lá fomos então para locadora. Estávamos esperando, e como havia muita gente, pagamos duas horas e fomos nos entretendo nas partidas e revezando as próximas, até que a Toinha chega a anuncia o fim da jogatina, já na bronca: “Acabou o tempo, meninos! Todo mundo para casa para almoçar! Não quero mães me pertubando aqui hoje!”. A coitada da Toinha sofria com as mães que a culpavam pelos meninos nunca chegaram na hora do almoço em casa…

Retrucamos: “Como assim, acabou? Não pode ser!”. Estávamos incrédulos porque nosso amigo ainda não havia retornado. Os que tinham mãe aguardando foram para a casa, já os que a mãe trabalhava fora, que era o meu caso, ainda ficaram na expectativa, ponderando preocupados pelo não-retorno do nosso amigo. O que teria acontecido?

No outro dia, chega a moça com cara de poucos amigos, bem triste, sozinha. Mais tarde vem o nosso amigo, com mais vergonha e timidez do que de costume. Não tardamos a começar o interrogatório: “Ela te deu o fora? Vocês brigaram? Alguém atrapalhou? Apanharam dos malas? Diz, fala logo, desembucha!”. Ele falou, olhando para o chão: “Ela ficou esperando na praça. Eu a vi de longe, fiquei com medo e fui embora por outro caminho…”.

Pelo jeito, o ditado tardou, mas pegou nosso amigo de jeito. Com o tempo, por motivos diversos, ele foi largando o Street (consequentemente deixando de ser um jogador habilidoso para se tornar um pato) e hoje está casado. Mas, enquanto foi bom no jogo, se arrependeu te não ter ido se encontrar com a moça na praça…

Sorte no Street Fighter II, azar no amor.

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Nada substitui o talento! Meme: A cara do WarpZona em palavras

10 Comentários Add your own

  • 1. krycov  |  setembro 26, 2008 às 3:53 pm

    Rs… realmente naquele tempo o nosso amigo era um banana de carteirinha… não só por essa garota, mas por outras que viriam depois… alguns casos se tornaram memoráveis… eu mesmo já tive que azarar um guria pra ele por telefone de tão timído que era… mas realmente, existia um entidade adormecida nele, que quando acordou, realmente revirou a situação… tornando o nosso amigo um verdadeiro Sr Melzinho da mulherada… posso afirmar isso por que eu e ele eramos parceiro neste campo “mulher”, tirei bastante vantagem das situações para me dar bem… eramos como RYU&KEN e passamos por diversas situasões ilusitadas… que como fala no final do filem do Connan… “mas essa é uma outroa história..”

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  • 2. Luna Ishtar  |  setembro 26, 2008 às 7:47 pm

    Se pra menino que jogava VG era difícil e menina como eu? hehehehe já passei por cada situação por ser uma “menina que joga VG” =P

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  • 3. EdSom  |  setembro 26, 2008 às 8:38 pm

    Luna,

    nos meus bons tempos não havia uma única gamer sequer, mas imagino que não foi nada fácil para você :)

    Hoje conheço algumas e acredito que, devido a nova estratégia da Nintendo e alguns outros fatores, muitas meninas terão acesso aos videogames, com menos preconceito, até porque videogame é entretenimento, não “coisa de meninos”.

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  • 4. Luna Ishtar  |  setembro 27, 2008 às 12:37 am

    É Edsom quando começei a jogar VG era e época do mega drive, e graças ao meu primo (fonte de todos os meus vícios heheh) comprie um N64 e foi daí que viciei de vez, com Zelda ainda por cima =P
    Hoje em dia conheço muitas garotas que jogam VG como eu, acho até engraçado porque não são poucas, mas é claro que em relação aos garotos tem bem menos meninas.

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  • 5. Intentor  |  setembro 27, 2008 às 1:40 am

    Bons tempos aqueles!

    De fato, sempre havia os bons em Street que não conseguiam se relacionar com as gatinhas e os medianos jogadores que sempre estavam com elas.

    Que saudade daquela época de parcas responsabilidades e imensas diversões!

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  • 6. Moska  |  setembro 28, 2008 às 12:48 am

    Velinhos! Parabéns pelo Blog! Está muito bom!

    Encontrei um de vocês no IESB Game Day e conversei sobre o videocast que temos em nosso blog.

    Fiquei de passar o meu contato: editado, para nos encontrar-mos amanhã no VideoGames Live e vocês participarem do nosso VideoCast!

    Um abraço
    Eduardo Moska
    LevelGamer.blogspot.com

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  • [...] 01×08 – Especial Street Fighter II – Parte 2: Sorte no jogo, azar no amor: na última coluna da primeira temporada, o mais nobre dos sentimentos é posto à prova, e fica a pergunta: o velho ditado vale mesmo ou haveria uma exceção? [...]

    Resposta
  • 8. Velhos bons tempos « Bem Vindo a WarpZona!  |  março 26, 2009 às 8:33 pm

    [...] certa tarde, aquele amigo que eu quase perdi numa partida de Street apareceu lá em casa, com mais dois colegas, eufórico: [...]

    Resposta
  • 9. Velhos bons tempos « Bem Vindo a WarpZona!  |  maio 22, 2009 às 1:40 am

    [...] sobre as lições que aprendi jogando Street Fighter II (clique nos números para as partes 1, 2, 3, 4 e 5), a coluna Velhos Bons Tempos retorna às suas origens, relatando as histórias sobre o [...]

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  • 10. Kapot  |  novembro 17, 2010 às 10:45 pm

    Apenas comentando que eu li e gostei da história.
    Nem sei como eu vim parar aqui, mas foi divertido.

    Resposta

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