Velhos bons tempos

agosto 21, 2008 at 3:21 pm 10 comentários

por EdSom

Mais uma semana de serviço, você chega em casa, joga as coisas no sofá e olha no computador as últimas notícias no WarpZona antes de ligar sua televisão para zerar aquele jogo… Se você consegue seguir o roteiro acima, parabéns! A maioria de nós, saudosos gamers, sabemos que hoje em dia meia horinha para videogames é luxo, com tantas contas para pagar, responsabilidades, trabalho, estudos, família, etc.

Porém mesmo nos velhos bons tempos podia ser igualmente difícil jogar ao menos alguns minutinhos… Nesta semana vamos ver o relato da dificuldade de conseguir se jogar nos bons tempos e também a primeira aposta que fiz na vida.

Éramos seis…

Estávamos no ano de 1988 quando eu e meus irmãos ganhamos nosso primeiro console, um Atari 2600. Foi um presente surpresa de meu pai: até então não tínhamos contato algum com videogames, fora um arcade ou outro visto de longe nos raros passeios aos shoppings, e não havíamos nem mesmo pedido. Ele chegou numa tarde, vindo do serviço, com o embrulho e um jogo: Superman. Seria a alegria da meninada.

Seria.

Como no título do romance de Maria José Dupré, éramos seis até então (no mesmo ano seríamos sete, com o nascimento de minha irmã caçula). Eu era o mais velho dos homens, com nove anos de idade, enquanto meus outros irmãos tinham oito e seis anos, respectivamente. Cuidando da gente havia minha irmã mais velha, com doze anos. Além de nós, meus pais.

Como tanto meu pai quanto minha mãe trabalhavam fora, minha irmã mais velha era responsável pela nossa criação e pelas tarefas domésticas. Minha mãe sempre nos ensinou a partilhar o pouco que possuíamos, então quando o videogame era ligado, era para os três jogarem sem brigas. Eu estudava à tarde e por vezes convidava alguns amigos da escola para jogar na parte da manhã (a maioria, como nós, era de família muito humilde e também não conhecia os videogames). Esta brincadeira acabou logo: minha irmã fazia faxina pela manhã, e logo que via aquela molecada na sala punha todo mundo (eu inclusive) para correr à cabadas de vassoura…

Com as manhãs vetadas e com os estudos à tarde, restariam as noites para as jogatinas.

Restariam.

Malditas novelas!

Como eu já contei anteriormente, tinhamos apenas um televisor velho em casa. Numa casa com tantas pessoas (além de nós sempre haviam parentes morando conosco), teríamos que combinar o uso da mesma racionalmente. E quem teve irmãs mais velhas sabe da lógica: na hora da novela não tem conversa!

Dava duas da tarde, vinha o Vale a pena ver de novo; depois engata novela mexicana no SBT. Em seguida, os seriados que passavam na Globo (lembro de Armação Ilimitada, mas não sei se passava no ano de nossa história) e tome mais novela: a das seis, das sete, Jornal Nacional e das oito. Como menino não tem vez, depois da novela das oito todo mundo na cama!

O pirata do espaço

Além disso, naquela época passava, às sete da noite, um desenho que eu achava sensacional: O Pirata do Espaço! Às vezes conseguiamos pescar a abertura e alguns poucos instantes nos comerciais entre às famigeradas novelas globais, mas era só a mulherada chegar na sala e pronto, tome mais novela…

Jogar era tão raro que não era de vez em quando, era de quando em vez… Nunca fui de gostar de novelas, e este período me gerou uma antipatia ainda maior. Alegria mesmo eram os horários políticos: meia hora de alegria garantida!

Na nossa conta de tempo, a semana já estava perdida, sobrando para nós apenas os finais de semana.

Coração de mãe

No sabádo começava com a faxina geral da casa. Como éramos muito folgados pequenos para ajudar, era chegada então a esperada hora da jogatina. Mas um fato alterou um pouco esta dinâmica: ganhamos o sensacional Enduro de presente!

Ao lado de River Raid, este jogo de corrida era o preferido da meninada. O alto desafio do jogo permitia partidas curtas mas emocionantes, gerando um rodízio justo entre os irmãos. Só que lá em casa era como coração de mãe, então coube mais um na roda: meu pai!

Superman para Atari

Embora fosse legal contar aos amiguinhos que o pai jogava também, tínhamos o revés de ter mais um no revezamento, além de que a vez do meu pai era mais demorada porque ele era viciado no jogo! Enquanto passávamos apenas dos primeiros dias (a progressão de jogo era marcada em dias), ele ia sempre por volta do nono ou décimo dias.

Após ganhar um troféu ao completar o quinto dia e outro no décimo (se não me falhe a memória), ele encucou que zeraria se fechasse o décimo quinto dia (estão vendo de onde arrumei o vício dos 100%…).

Como falei no início, jogar era um luxo raro…

A aposta

A medida que o tempo foi passando ele ficava cada vez mais habilidoso. Chegava invariavelmente ao décimo segundo dia, e às vezes chegava até o décimo quarto! Embora estivéssemos chateados de perder nosso tempo de jogo, aquilo começou a virar um hábito familiar nosso, um bom momento que recordo hoje: assistir meu pai detonando no Enduro!

Numa tarde de sábado ele chegou empolgado e apostou conosco: “Se eu chegar na décima quinta fase eu pago o sorvete hoje!”. A meninada foi à loucura, porque sorvete era artigo de luxo, coisa para aniversários, Natal e Ano Novo. Além disso, na aposta não havia reveses para a gente :) Todos à postos, ele deu início a aguardada tentativa.

Para vencer um dia, era necessário ultrapassar um certo número de adversários. No primeiro era duzentos, depois trezentos e, se não me engano, estabilizava em quatrocentos. Se ocorresse uma batida, além da perda da velocidade havia a perda de várias posições.

Ele estava indo até melhor do que de costume. Passou os primeiros dias quase de “perfect“, e chegava a primeira posição nos dias subseqüêntes com uma certa folga. A tensão foi subindo: sétimo, oitavo, nono, décimo, décimo primeiro dia…

Enduro

Enduro

O décimo segundo era quando a coisa engrossava e ele costumeiramente perdia. Mas aquele dia ele estava atacado: passou do décimo segundo dia com uma única batida! Acelerador no fundo, décimo terceiro, algumas batidas e ninguém fazia um pio com medo de atrapalhar. No limite ele venceu o décimo terceiro e partiu para o último estágio antes do sorvete: o décimo quarto!

Aquilo já era momento histórico, independente da aposta. Os carros zuniam, o meu pai não arredava o dedo do acelerador e tricotava os adversários com precisão milimétrica. Acho que naquele momento nem o sorvete importava mais: a questão era ver meu pai zerar o difícil jogo.

Já no trecho final, a poucos adversários da vitória, uma batida fez com que ele perdesse importantes posições! Ficamos todos aflitos, e mudos torcíamos internamente que ainda fosse possível uma recuperação. Ele foi com toda a habilidade, o sol no horizonte, faltavam 20 adversários, depois 14, 11, 7…. Game over!

A decepção foi geral, mas ele usou de fair play e comprou o bendito sorvete. Comentamos aquilo por dias, e depois deste evento ele foi deixando de jogar, hora por responsabilidades familiares e domésticas, hora por não se interessar por nenhum outro jogo.

Mas eu queria mesmo era ver meu pai zerando o Enduro…

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10 Comentários Add your own

  • 1. Ryunoken  |  agosto 22, 2008 às 12:11 am

    Edsom, acho que mais umas 40 colunas dessa e você terá um livro completo e inédito em mãos!

    Responder
  • 2. maxi2099  |  agosto 22, 2008 às 1:16 am

    Hahaha, pior que é. Warpzona: Minha nada mole vida gamer.

    Responder
  • 3. Rael  |  agosto 22, 2008 às 2:40 am

    maxi, e afinal, acaba no 15o dia?

    Responder
  • 4. EdSom  |  agosto 22, 2008 às 1:21 pm

    Provavelmente não acaba. Os jogos de Atari ou continuavam indefinidamente ou zeravam tudo quando se atingia um certo nível. Mas o 15° dia era a meta pessoal do meu pai, que infelizmente ele não atingiu.

    Ainda tem uma história ou outra para contar. Vamos ver se dá para escrever mais quarenta :)

    Responder
  • 5. Rael  |  agosto 22, 2008 às 6:39 pm

    Pois é, eu lembro disso (dos jogos não terem fim).
    Lembro de apenas 2 onde cheguei à um “fim” (entre aspas mesmo): o Dolphin, que realmente dava uma mensagem do tipo “Congratulations” quando você avançava muito, e o Pinball, que eu literalmente fiz o placar zerar (3 vezes em seguida, inclusive).

    Sobre as histórias: continue postando! :D

    Responder
  • 6. Eduardo  |  agosto 22, 2008 às 10:55 pm

    Haha…eu lembro dessa história. Acho que descobri porque o pai comprou esse Atari. Fazendo um retrospecto do casamento do Léo, os parentes do meu pai que moram em outro estado fizeram uma surpresa e chegaram aqui um dia antes da cerimônia. Conversa vai, conversa vem e, de repente, um dos primos pequenos me pede para jogar no computador. Respondi “tá bom” e fui para a cozinha. Quando volto (uns 5 minutos depois) até o Zé Maria (meu tio) jogou uma mãozinha de jogos de znes no computador!!! Resumindo, o vício já é de família hehe…tá no sangue.

    Responder
  • 7. Robson França  |  agosto 24, 2008 às 4:52 am

    Muito louca a história! E pode crer, daria um livro do kct!

    Abraços

    Responder
  • 8. EdSom  |  agosto 25, 2008 às 1:13 pm

    Agradeço o apoio de todos. Pretendo postar uma nova história por semana, sempre na sexta-feira.

    Abraços.

    Responder
  • […] 01×05 – Éramos seis…: a coluna que melhor trata de minha família, fala da dificuldade de se jogar naquela época, da primeira aposta que fiz na minha vida e do orgulho que tinha de ter um pai que gostava de videogames. […]

    Responder
  • 10. Velhos bons tempos « Bem Vindo a WarpZona!  |  maio 22, 2009 às 1:41 am

    […] que embora divertido, não estava relacionado à F1, e não permitia um duelo contra meus irmãos e meu pai. Quando íamos aos arcades e víamos aqueles fliperamas linkados para dois ou quatro jogadores, era […]

    Responder

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