WarpReviews: 007 Goldeneye | N64

janeiro 28, 2009 at 10:22 pm 14 comentários

Por Barry Burton

Eis que surge o inesperado: um game de tiro em primeira pessoa, totalmente isento de monstros, contanto apenas com inimigos humanos, sem armas tecnológicas; uma desenvolvedora que jamais havia feito um FPS; um console taxado de “infantil”; ainda por cima baseado em um filme. E que conseguiu ser um excelente jogo. Não apenas isso, mas Goldeneye, feito pela Rare para o Nintendo 64, definiu inqüestionavelmente como fazer um FPS para ser jogado em um controle de videogame comum, além de ditar as regras para tornar o estilo divertido, longevo e desafiador. Sem contar um multiplayer pra lá de divertido e contagiante. E mais: é um dos poucos jogos já lançados que, somando-se todas as qualidades, pode-se considerar vastamente superior ao filme de origem.

O jogo já mostra sua finesse logo na abertura, reproduzindo com classe a introdução característica da série: com uma câmera “dentro” do cano de uma arma, vemos James Bond andando com calma, aparentemente sem perceber que será alvejado, quando de repente se vira e acerta o atirador, fazendo com que a tela “sangre”. Esse ótimo efeito se repete quando você morre em uma missão, fazendo sempre uma referência ao personagem.

Por falar em referências, é incrível como todas as músicas do jogo na verdade são a mesma (a clássica tan, tãnãnãnan nan, tan tan tãnãnãnã, nan…), mas com arranjos tão diferentes que o humor muda completamente, proporcionando uma grande variedade entre as missões, indo desde marchas militares até simples arranjos com sinos. Ah, e todas são excelentes, diga-se de passagem.

Os efeitos sonoros também são muito bons. Há o som dos veículos como caminhões e tanques, vidraças estilhaçando (raridade pra época), e os hilários gemidos de dor dos soldados quando tomam tiro. Os tiros das armas possuem um barulho bem realista, além de um efeito muito legal – pelo que me lembre, foi o primeiro FPS a ter balas que PARECEM balas de verdade, pois elas zunam em uma velocidade impressionante, deixando um rastro avermelhado pelo ar, e, ao atingir paredes abrem um buraco convincente. As explosões também têm um efeito muito bom. O fogo vai se espalhando aos poucos e o chão e paredes próximos ficam queimados. E é sempre engraçado ver os soldados morrendo no meio delas.

Falando em armas, elas são um dos maiores atrativos do jogo. Elas não são ultra tecnológicas (tirando a Moonraker Laser, claro, que conta com uma vibe futurista-retrô) e não têm super efeitos especiais, mas são todas distintas e com um feeling bem diferente entre si. Temos a Sniper Rifle, uma das armas mais divertidas do jogo (jogue na Surface, a missão da base na neve, para ter uma idéia); a RC-P90, uma metralhadora pequena no tamanho, mas grande no pente (80 balas!); as Throwing Knives, facas afiadas com uma física bem realista (acerte com o cabo e o dano é menor, acerte com a lâmina e praticamente mate seu adversário); e mesmo armas mais convencionais como as submetralhadoras Phantom ou a pistola PP7 são muito gostosas de usar.

Isso porque a jogabilidade é um espetáculo. Com a simples adição de uma mira semi-automática (que vagamente mira para o peito do adversário mais próximo), a Rare resolveu 90% dos problemas de FPS para consoles. Não apenas isso, mas você pode configurar o controle para se deslocar utilizando os botões C e olhar em volta com o analógico (é a configuração 1.2, “Solitaire”, definida pela própria Rare em seu site como a melhor maneira de jogar o jogo. Ela não é a inicial por não ser convencional, acredito eu, pois todos achariam estranho não andar com o analógico em um primeiro momento). Atire com o Z, que naturalmente se parece com um gatilho, troque as armas com o A e execute ações como abrir portas com o B. Segure R para que apareça uma retícula de mira, e faça quantos headshots conseguir com a incrível precisão do jogo.

A tela de pause, sozinha, merece um parágrafo. Ao se apertar Start, ao invés de aparecer um menu sem-graça com opções, vemos o braço esquerdo de 007 se movendo para que visualizemos seu relógio. Nele há várias coisas como informações sobre a missão, ajustes de controle, som, formato de tela, escolha de armas, entre outros. Um show!

Os gráficos do jogo são um deslumbre para a época, e mesmo hoje ainda surpreendem. A primeira fase, por exemplo, é gigante, algo pouco visto mesmo em alguns jogos atuais, e apresenta uma profundidade de campo impressionante. Olhar para as montanhas ao longe é indizível. A escolha de tons e cores para a representação dos cenários também é bem agradável, com grande ênfase aos tons pastéis e azulado. As missões variam bastante de cenário, indo desde bases subterrâneas no gelo até florestas tropicais interligadas por cavernas. Os modelos de personagem, embora sejam apenas uns blocões quadrados e feios quando vistos de perto, convencem bastante quando se movimentam a certa distância, com animações bem realistas e naturais – melhores até que muitas animações de hoje! Os guardas, antes de notarem você, fazem os mais variados movimentos, como espreguiçar, andar, coçar a cabeça e até mesmo espantar mosquito com a metralhadora. Quando percebem você, entram em formação para atirar, bolam estratégias como separarem-se para lhe flanquear, rolam para esquivar de seus tiros, jogam granadas, entre outras coisas. É uma IA avançada que dificilmente vemos em outros jogos. Além disso, há vários “hit boxes” nos inimigos, o que significa que dependendo de onde o seu tiro pega ele reage de uma maneira diferente. Atire na perna e ele irá se arrastar por alguns instantes, atire na cabeça e é morte instantânea.

Mas é claro que há alguns probleminhas que não deixam de ser pequenos glitches engraçados, como quando atiramos em um soldado que está rolando, o qual solta um grunhido como se tivesse morrido, mas continua rolando até se levantar, e só então joga a arma no chão e cai morto.

Quanto ao valor agregado ao título no que diz respeito às cenas fora da gameplay, infelizmente o jogo peca um bocado. As introduções às missões não passam de um texto, e as cutscenes são muito pobres, com animações bem simples e sem nenhum trabalho de dublagem.

A maior parte das missões possui um design, no mínimo, brilhante – talvez com exceção da St. Petersburg: Statue Park, que é super confusa e com alguns objetivos dispersos. Todas elas são bem grandes e incentivam uma jogatina meio “furtiva”, ou seja, tente não ser visto, não acionar alarmes, não deixar as câmeras te pegarem etc. (nunca entendi como nenhum segurança acha estranho o fato de uma das câmeras ter explodido). As missões não são simples. Não basta ir andando do ponto A ao B matando tudo que estiver na frente e pronto. Elas possuem objetivos.

Os objetivos são muito elaborados e bem-feitos, e mesmo que a princípio você não entenda o título, há sempre uma explicação no briefing para o que deve ser feito. Eles incluem destruir alarmes, encontrar um agente disfarçado de cientista, instalar um rastreador em um helicóptero, salvar reféns, desativar o sistema de comunicações, entre várias outras tarefas que enriquecem o layout das fases. Se há alguma reclamação, fica por conta dos chefes, praticamente inexistentes. Quando há, não passam de soldados normais que agüentam mais tiros. Porém, é algo que realmente não faz falta. Há apenas um objetivo que dá nos nervos: o de escoltar a Natalya (leia: idiota), um boneco com QI negativo, que adora passar no meio do tiroteio, ficar parada onde não deve e correr pro meio da explosão. Que morra!

Como se já não bastasse esse modo single player arrasador, o jogo conta ainda com um Multiplayer inacreditavelmente viciante. É difícil você conhecer alguém que não goste dele, e por anos ele foi “O” multiplayer local para se divertir com os amigos, batendo até mesmo Mario Kart 64. Vários mapas, do jogo single e outros exclusivos, estão disponíveis para uma matança com até quatro jogadores, e com regras altamente customizáveis. Você pode escolher o tipo de armas, um entre 64 personagens diferentes, regras como “king of the hill” ou “one hit kills”, todas com nomes inspirados em filmes do James Bond. Por exemplo, se você escolher “You only live twice”, todos os jogadores só poderão morrer duas vezes. Legal, não?

Um parágrafo para a melhor arma multiplayer: as Proximity Mines! Trata-se de uma versão das minas do single player, as quais você tem de apertar um botão no relógio para que explodam. No caso, você planta uma mina na parede e, quando alguém passa perto, vê uma enorme explosão – quando já é tarde demais, é claro. Essa arma hilariante era um clássico ao jogar na fase do laboratório (Facility), por exemplo, pois havia várias salas pequenas como o banheiro e tubulações apertadas. Foi tão marcante que até mesmo Smash Bros. tem uma versão dessa mina, e o design é extremamente semelhante. Homenagem, talvez?

Acha que acabou? Que nada! O jogo ainda conta com uma infinidade de extras para se destrancar, geralmente baseado no tempo que você gasta para terminar uma missão em determinada dificuldade. Por exemplo, passe a missão Control em menos de 10 minutos na dificuldade Secret Agent para destrancar munição infinita. Terminar o jogo nas dificuldades mais altas abre novas missões. Apesar de a primeira, Aztec, ser um horror de difícil, a última, Egypt, é tão fácil que dá até dó… mesmo na dificuldade 00 Agent.

Goldeneye definiu, de forma magistral, como deveriam ser os FPS de consoles. Simples assim.

Anúncios

Entry filed under: Warp Reviews. Tags: , , , .

Sobre jogos online & mau comportamento WarpReviews: Contact | DS

14 Comentários Add your own

  • 1. Intentor  |  janeiro 28, 2009 às 10:51 pm

    Um clássico. Sem mais.

    Responder
  • 2. maxi2099  |  janeiro 29, 2009 às 12:08 am

    “Eis que surge o inesperado: um game de tiro em primeira pessoa, totalmente isento de monstros, contanto apenas com inimigos humanos, sem armas tecnológicas;” Coitado do Wolfenstein 3D, ele não conta?

    Responder
  • 3. Rafael "Barry" Ventura  |  janeiro 29, 2009 às 1:27 pm

    O Hitler não era um ciborgue?

    Responder
  • 4. Dunky  |  janeiro 29, 2009 às 4:31 pm

    Ahh Goldeneye mudou minha vida ;(
    Top fps, ainda mais quando se trata do multiplay *nunca joguei essas paradas “novas” como multiplayer do Halo e tal mas não faz diferença .. james bond é james bond xD*

    Facility ftw o/ bem que podiam criar remakes da facility para os fps atuais né? XD

    Responder
  • 5. Thomas Miller  |  janeiro 30, 2009 às 1:40 pm

    Ahhh, que nostalgia! Eu tinha um Nintendo 64, dois controles, com o 007 e o Super Mario. Vendi TUDO por R$50,00! Me arrependo demaaaaaaaais x(

    “Mas é claro que há alguns probleminhas que não deixam de ser pequenos glitches engraçados, como quando atiramos em um soldado que está rolando, o qual solta um grunhido como se tivesse morrido, mas continua rolando até se levantar, e só então joga a arma no chão e cai morto.” ROFL!

    “Há apenas um objetivo que dá nos nervos: o de escoltar a Natalya (leia: idiota), um boneco com QI negativo, que adora passar no meio do tiroteio, ficar parada onde não deve e correr pro meio da explosão. Que morra!” ROFLcopter!

    Muito bom o review, gostei ;)

    Responder
  • 6. JackMarlboro  |  março 10, 2009 às 9:08 pm

    Po, Barry! Parabéns! Review de primeira.
    Assim como o Thomas, me desfiz do meu N64 com 007, Mario Kart, F-Zero X e Ocarina of Time por uma mixaria. Efeito PSX na cabeça de um guri de 13 anos…
    Mas agora tô começando uma coleção de N64. Goldeneye e Ocarina of Time já estão garantidissimos. Abrassss.

    Responder
  • 7. Rafael "Barry" Ventura  |  março 11, 2009 às 9:41 pm

    Nossa, Jack!

    Eu fiz exatamente a mesma coisa, exatamente pelo mesmo motivo!

    No entanto, eu consegui refazer minha coleção de N64 com o tempo =]

    Responder
  • 8. Gogeta  |  junho 30, 2009 às 11:52 pm

    Excelente review, Barry. Parabéns.

    Ficou bem fácil de entender os prós e contras (se é que dá pra encontrar) do jogo, e o texto tá muito bem escrito e eminente.
    Ah, e pegando carona no meu próprio comentário, achei que esse sistema de notas localizado no fim e sem valor numérico é muito mais incisivo e apropriado, ainda mais para os reviewers que não querem que os “leitores” caguem na sua cabeça deixando de ler o texto pela nota que foi dada ao jogo.

    Responder
    • 9. Rafael "Barry" Ventura  |  julho 1, 2009 às 12:50 pm

      Obrigado, Gogeta!

      O objetivo de nossos reviews é exatamente esse: descrever tudo que o jogo tem de bom e ruim no texto, sem apontar em listas nem pontuar com notas, exatamente para que nossos leitores não fiquem com uma impressão superficial do jogo.

      Infelizmente, a “guerra” de leitores que defendem essa e aquela plataforma se dá apenas com notas de jogos, o que nos irrita profundamente. Sem contar isso que você disse, destruírem o redator por conta da nota.

      Lembro o tanto que a gamespot foi criticada por ter dado 8,9 pra Twilight Princess (até por mim mesmo!). Daí, quando fui jogar, notei que o cara tinha razão.

      Notas só dão dor de cabeça. Games, como obras sensoriais e artísticas, não podem ser quantificados. Por isso adotamos a idéia de “conceito” =]

      Responder
  • 10. Deivs  |  novembro 7, 2009 às 12:38 am

    Olá !!!

    Eu já jogo 007 ha um bom tempo mas so agora estou tendo tempo pra jogar com o objetivo de zerar. Perdoem minha ignorancia mas não estou conseguindo passar da décima fase, a que temos que falar com Valentin, a segunda missão (Conffront and unmask Janus ) sempre da FAILED. Já tentei várias coisas e nada.

    Responder
    • 11. Tho Pai  |  dezembro 8, 2009 às 10:48 pm

      *Spoiler do jogo*

      Respondendo a duvida do Deivs

      Fale com Valentin (não o mate) e siga até a estatua, chegando lá, fique sem nenhuma arma na mão, haverá um dialogo entre vc e Janus (006), e cumprirá um objetivo, depois eh correr e atirar pois haverá uns guardas de 12 e etc. Volte até o inicio da fase. A partir daqui vc ja consegue passar!! ^^
      _______________________________

      Sobre o review, ta de parabens, jogo praticamente perfeito, foi baseado no filme mas mesmo assim, ficou superior. Concordo com vc Barry, a Natalya realmente é bem burrinha, odeio proteger ela na fase Control (acho que eh esse o nome >_< ) ela morre muito facil e você nem percebe os tiros =O.
      Jogo realmente excelente e review a altura do mesmo! Parabens ! =P

      Responder
  • 12. Melquizidec  |  fevereiro 6, 2010 às 1:11 pm

    eu quero saber como passar a fase Goldeneye de james bonde.

    Responder
  • 13. Como estragar Goldeneye «  |  agosto 24, 2010 às 1:25 pm

    […] caso não se lembrem o quão bom era a versão de N64, apesar da rusticidade da época, leiam nosso review e assistam ao vídeo da mesma fase, após o […]

    Responder
  • 14. DoubleJump  |  março 27, 2011 às 11:49 pm

    […] caso não se lembrem o quão boa era a versão de N64, apesar da rusticidade da época, leiam review do Warpzona e assistam ao vídeo da mesma fase. […]

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


warpfeed

WarpStats

  • 562,291 hits

Warptwitter

Erro: o Twitter não respondeu. Por favor, aguarde alguns minutos e atualize esta página.


%d blogueiros gostam disto: