Velhos bons tempos

março 13, 2009 at 3:07 pm 11 comentários

por Toe Jam

Os bons tempos estão de volta!

A re-estréia da coluna Velhos Bons Tempos, agora em sua segunda temporada (quem perdeu a primeira pode achar um resumo e os links para a primeira temporada aqui), retoma o especial sobre as lições de vida que aprendi jogando Street Fighter II.

Na história de hoje, temos uma tentação, um arcade e uma decisão não muito difícil. Boa leitura!

Em busca de adversários

Na época do auge do Street, a medida que os anos se passavam, eu me tornava um jogador cada vez mais habilidoso. Não era de nem de longe o melhor jogador da região, mas era um adversário valente e trabalhoso, quem não entregava um round sem uma boa briga.

Porém, com o início da derrocada das locadoras por aqui (não sei como foram nos outros estados, mas as locadoras literalmente ‘sumiram do mapa’ aqui no Distrito Federal), ficava cada vez mais complicado se achar um bom adversário em para ‘tirar um contra’. Às vezes eu passava na casa de amigos ou em algum lugar que ainda resistia bravamente, achava um adversário e já fazia o ‘teste de patice’ para ver se valia a pena jogar com o dito cujo.

Para o leitor entender melhor o que viria a ser o ‘teste da patice’, preciso fazer um adendo sobre a personagem envolvida, M. Bison, que no caso era o boxeador, não o último chefe. A Capcom trocou os nomes de três dos quatros chefes do jogo da versão japonesa para lançá-lo no ocidente (isto para evitar processos de direitos de imagem, pois o nome Mike Bison era uma referência ao boxeador Mike Tyson), de modo que o boxeador passou a se chamar Balrog, o espanhol das garras virou Vega e o último chefe herdou o M. Bison (a molecada o chamava ‘Mestrão Bison’, enquanto os ‘mais esclarecidos’ o chamavam ‘Marechal Bison’…).

Veja o que uma confusão de nomes pode causar...

Veja o que uma confusão de nomes pode causar...

Pois bem, o teste de patice, para quem não conhece, consistia no seguinte: eu selecionava o M. Bison e pegava o adversário no ‘balão’ (ou ‘agarrão’, dependendo da sua região) do soco forte, que consistia em dar várias cabeçadas consecutivas no adversário. Enquanto o adversário apanhava, eu já segurava os três socos: quando o boxeador soltava o inimigo, eu liberava os botões, acionando o soco especial do mesmo. Se o adversário fosse pato, tomava um belo direto na fuça e eu já emendava novas cabeçadas; se fosse bom, defendia o golpe mas levava as cabeçadas na seqüência do mesmo jeito…

Já fui xingado e ameaçado muitas vezes por conta desta manha :) Me chamavam de pato, apelão, que eu não sabia jogar, que só jogava com manha e por aí vai, mas só os jogadores de maior quilometragem conseguiam sair desta trapaça (em geral, com um shoryuken no momento certo). Como não achava mais bons adversários nos consoles, fui obrigado a rever minha posição quanto aos arcades…

Caindo em tentação…

Os arcades para mim eram um sonho, uma verdadeira tentação por conta dos gráficos mais sofisticados e da atmosfera de competitividade, mas longe dos meus alcances por dois motivos. O primeiro era de ordem financeira: com o equivalente a quatro fichas se jogava uma hora nas locadoras, com direito a segundo controle, e como eu era quebrado de carteirinha, quando havia a oportunidade de jogar tinha que ser pelo maior tempo possível. O segundo, mais determinante, era da ordem de auto-preservação (autopreservação? autoppreservação?): os fliperamas da minha cidade eram, em quase sua maioria, repleto de ‘malas’.

E digo ‘malas’ no sentido perigoso da palavra. Não era estranho ouvir histórias de desavisados (des-avisados? dessavisados?) que iam jogar umas partidas e voltavam sem as fichas, sem nenhum centavo e, de quebra, sem os tênis…

Zanguief

Zanguief

Um dia, resolvendo problemas de documentação no centro da cidade, vi o fliperama da rodoviária estranhamente vazio. Fique meio de longe, observando por uns minutos, e ninguém nem entrava nem saía. Não resisti a tentação por muito tempo sufocada, peguei o dinheiro da passagem (o que me custou uma caminha de 30 minutos na volta para casa…) e comprei uma ficha. Selecionei minha personagem favorita, o russo Zanguief, e fui curtir a experiência grafica e sonora. Além disso, tinha outro atrativo: eu que praticamente nunca tinha jogado em manches, vi que era muito mais fácil dar um pilão giratório com ele que com o D-pad do SNES!

Here comes a new challenger!

Estava eu no meu alegre segundo round quando entra um mala. Fiquei na minha, meio desconfiado, e pensei: “Com sorte ele vai para a outra máquina, que está vazia, e nem me nota aqui”. Mas a sorte não estava do meu lado: o mala se aproximou para ver minha partida e logo comentou com sarcasmo: “Zanguief? Tu num sabi jogá não?” e foi comprar uma ficha para entrar contra.

M. Bison, o detector de patos

M. Bison, o detector de patos

E lá veio ele, todo cheio de manha e manias, colocou a ficha e selecionou o Ken, confirmando como só mala fazia (isto é, dando literalmente um murro no botão e depois apertando freneticamente um botão e balançando o manche de um lado para o outro). Eu já sabia onde aquilo ia dar: ia ter que terminar entregando a partida para evitar confusão…

E não deu outra: além de mala, o cara para pato só faltava as asas. Ficava dando hadoukens e shoryukens a torto e a direito, sem critério nenhum. Como eu estava com o Zanguief, fingir não era muito complicado: era só errar um pulo aqui e outro ali, dar um chute nele de vez enquanto e pronto, round perdido.

Mas aí a coisa complicou. O mala começou a dar um de bonzão e tirar onda, me sacaneando e me chamando de pato. Daí eu me irritei e pensei: já que vou perder minha ficha mesmo, este segundo round não vai sair de graça…

Manda quem pode, obedece quem tem juízo…

No segundo assalto dei nele uma pisa das mais servidas que ele já deve ter tomado no Street: perfect, pilão giratório, tonteira, isto tudo em menos de 30 segundos. O mala ficou louco, cheio de ‘colé, maluco!’, e eu já esperando um tapa bem dado na cabeça (afinal, ele era de 15 a 20 cm mais alto do que eu). Mas a coisa piorou um pouco mais.

Chegou um segundo mala, ainda maior e mais forte que o primeiro, e que conhecia o bendito. Ele foi se aproximando do arcade e viu o Zanguief comemorando e o Ken esparramado pelo chão. Ele perguntou para o primeiro: “Falaí, véi! Tá jogano cum keim?”. E o outro respondeu: “Cô Ken!”. “E tu tomô um perfékiti dessi muleki?”. “Agora a jiripoca pia”, pensei.

Enquanto eu tentava convencer minhas pernas a se mandar dali, o outro respondeu: “Larga dessa, vacilão. Dexei o muleki ganhá para jogá outro round. Morô?”. “Tu tem as moral mermo, mano!”, elogiou o segundo. “Essa eu ganhu fácil”, concluiu, olhando para mim com uma cara de quem sabia que se eu ganhasse o terceiro round, ia ter um quarto na saída do fliperama, com direito a tag team…

Minha ficha indo para o ralo...

Minha ficha indo para o ralo...

Daí as sábias palavras de minha mãe vieram a minha cabeça: “Meu filho, na vida manda quem pode, obedece quem tem juízo…”. Usei a mesma estratégia do primeiro round e perdi minha ficha. O mala gigante ficou achando que seu amigo era ‘aviciado’, o pato ficou tirando onda de bonzão e eu fiquei com os todos meus dentes dentro da boca…

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11 Comentários Add your own

  • 1. Guilherme  |  março 13, 2009 às 4:07 pm

    Cara… sempre tinha esses malucos nos flipers… aqui no centro de São Paulo então… como a escola era perto do centro, então a gente nunca ia sozinho, dai dava mais segurança… sempre que um muleke camarada nosso se atrevia a ir sozinho deixava 5 conto “a mais” no fliper por causa de ameaças…

    na época cada ficha custava 0,25 R$ (isso entre 1998 e 2000) ou seja, por 1 real se passava um bom tempo por dia, isso dava 5 reais por semana…

    mas o mais engraçado é que tinha toda uma ética para se jogar no fliperama… o cara nunca podia ir colocando ficha e apertando Start sem antes perguntar se podia entrar… se o cara entrasse contra sem perguntar…. afff era só as apelações (ligando combos e mais combos, p. ex. em King of Fighters), combos que não davam para defender (Marvel vs. Capcom e Marvel vs. Street Fighter), sair correndo e partir pra cima antes de comerçar a luta (Star Gladiator 2) esse tipo de luta mais apelativa… mas se o cara perguntasse antes e quem já estava jogando aceitasse, daí era uma luta mais equilibrada, sem apelações ou combos secretos **que poucas pessoas conheciam na época*** (os especiais do Akuma em SF Turbo ou o da Morrigan ou do Demitri em Darkstalkers)… mas era bem difícil vc perguntar antes se podia entrar e o cara dizia “não, tô tentando chegar no final sozinho”, daí o pessoal respeitava e deixava o cara se divertir sozinho….
    toda uma ética no fliper

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  • 2. maxi2099  |  março 13, 2009 às 4:34 pm

    Quando SF2 chegou aqui eu era bem novo, e conheci o jogo em um bar onde meu pai costumava me levar e que foi onde eu comecei a jogar fliperama. Lá era só ele que podia jogar contra eu, e quando eu estava jogando sozinho ele sempre ficava perto e não deixava ninguém colocar ficha. Já na minha adolescência, onde eu comecei a frequentar esses lugares sozinho, nunca tive problemas com esses indivíduos. O máximo que aconteceu foi uma vez que eu coloquei duas fichas no X-men vs Street e fiquei jogando até que chegou um pra tirar um contra. Eu venci a luta, aí na tela de continue ele apetou Start e lá se foi minha segunda ficha. Quando eu reclamei com ele que aquela ficha era minha ele virou e falou “ah, que sua o que, isso aí deve ser de alguém que colocou e esqueceu”. Então eu larguei a máquina e fui reclamar com o dono do fliperama, que já era meu chegado de tanto que eu ia lá. Aí ele foi comigo até lá e perguntou para o cara porque ele estava jogando minha ficha, e este, já com medo, falou que não sabia que a ficha era minha e deu dinheiro para ele colocar outra ficha na máquina que eu quisesse.

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  • 3. Tottou  |  março 15, 2009 às 6:20 pm

    Como diz o dono da padaria que tinha máquina de SF: “NUM VALI ISCUIÊ U BOROGUI”.

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  • 4. Claudio Prandoni  |  março 16, 2009 às 4:22 am

    Poxa, infelizmente não tenho nenhuma história de Street de fliperama / boteco / similares dignos. Mas me diverti pacas com a história e apreciei o juízo com o ‘mallandru’ lá.

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  • 5. Kaka  |  março 16, 2009 às 8:08 pm

    Belo texto de estreia da nova temporada, EdSom! Eu me lembro o quanto sofri com os engraxates e vendedores de pirulito que se aproveitavam do fato de eu ser uma criança pequena e apertavam o start antes de mim quando eu colocava a ficha. E ainda diziam na cara de pau que eu tava jogando, e que os comandos não respondiam porque a máquina tava ruim! Maldade pouca é bobagem. :(
    Aproveitando, eu contei uma historinha de sofrimento arcadiano láaa no WarpGirls, mas, no caso, o jogo era KoF. Quem não deu uma passada lá ainda (né, sr. EdSom), tá aqui o link:
    http://warpgirls.blogspot.com/2009/02/meet-procrastinator.html

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  • 6. jaoMartelo  |  março 17, 2009 às 11:02 pm

    Até que enfim esse colunista saiu das férias, hehehe. Como sempre ótimo texto EdSom, e pra finalizar só vou mandar um FRACO! pro senhor, hehehe. Quando quiser tirar aquela partida de fliperama pra relembrar os bons e velhos tempos no teu antigo emprego liga peão!

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  • 7. Krycov  |  março 18, 2009 às 11:30 am

    Boa Edsom… mas acho q vc, mesmo com esta atitude correu um certo risco, imagina se ele implica q tu ta entregando… vc sabe q pra mala do G*ma basta ta pensando nele… acho q vc poderia ter tentado ser amigavel com o cara… de repente, alem de mala ele poderia ser até gente boa… como um sabio me disse uma vez: “nesse mundo agente tem q conhecer tudo q é tipo de pessoa…” e isso é verdade… olha q eu conheço gente q escapou de ser assaltado pq conhecia o bandido… se tu entrega o 1ºR e depois desse a lenha no 2ºR… já era motivo pro cara encrespar…

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  • 8. Rafael "Barry" Ventura  |  março 18, 2009 às 1:22 pm

    Eu dei sorte. Tinha uma locadora de filmes e games pertinho da minha casa que tinha várias máquinas de fliper, e o pessoal lá era sempre camarada. Lá, com 25 centavos, jogava-se duas vezes. Foi lá que aprendi a jogar Street.

    Mas o engraçado é que eu era sempre o pato, independente de ser Street, Marvel ou Killer Instinct – afinal, eu era muito novo e, bem, os donos da locadora jogavam de graça “infinitmente” (aliás, tô começando a achar que eles entrarem contra era um macete pro pessoal comprar mais ficha).

    Foi aí que eu comecei a sempre escolher os personagens menos populares (aka nenhum clone do Ryu, o seja, Karin, Dhalsim, Jin Saotome etc.), pra ver se pegava de surpresa os viciados. E não é que um belo dia, levando um colega lá pr me ver jogar, eu ganho do cara mais boladão da locadora com a Rainbow Mika, de perfect? O pior é que eu nem estava prestando atenção na luta. Quando perceberam que ganhei tão fácil, passaram a me respeitar. Foi legal!

    Responder
  • 9. Velhos bons tempos « Bem Vindo a WarpZona!  |  abril 17, 2009 às 12:05 am

    […] maneira, depois de quase perder um amigo por conta de inúmeras vitórias sucessivas, de encarar um mala, de vencer o melhor de todos e de humilhar o chato, minha hora tinha chegado: ao fim da tarde, o […]

    Responder
  • 10. Velhos bons tempos « Bem Vindo a WarpZona!  |  maio 22, 2009 às 1:40 am

    […] sobre as lições que aprendi jogando Street Fighter II (clique nos números para as partes 1, 2, 3, 4 e 5), a coluna Velhos Bons Tempos retorna às suas origens, relatando as histórias sobre o […]

    Responder
  • 11. Velhos bons tempos «  |  janeiro 17, 2011 às 5:56 pm

    […] eu fugisse dos arcades como o diabo foge da cruz, como contei na coluna passada, meus amigos iam aos fliperamas com uma certa frequência. Em geral iam em bando e me convidavam, […]

    Responder

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