Velhos bons tempos

março 26, 2009 at 8:32 pm 10 comentários

por Toe Jam

Se uma semana tem 7 dias, duas tem 15… 15?! Não peraí: uma semana deve ter 8 dias, mas daí duas semanas teríam 16… não, não, ainda não está certo…”

Mais uma sexta, e você aí, com saudades da época que a matemática ainda fazia sentido, tentando calcular quando sairá a próxima edição da coluna Velhos bons tempos… A conta é simples, sexta sim, sexta não, a coluna do tempo da palmatória volta com mais um causo da era de ouro dos games.

Na quarta parte do especial sobre as lições de vida que aprendi jogando Street Fighter II, temos uma verdade aprendida numa história envolvendo minha busca em aperfeiçoar ao máximo minha técnica, uma grande conquista e meu embate com o melhor jogador da região.

Boa leitura após o salto!

Gamão rumo à Tóquio!

Como o meu time do coração, a Sociedade Esportiva do Gama, que sonhava alto com sua ascenção à primeira divisão do futebol brasileiro (a torcida levava para os estádios a faixa: “Gamão, rumo à Tóquio!” em todos os jogos…), eu também sonhava em poder um dia se tornar um dos melhores jogadores de Street Fighter II. As semelhanças com meu time não paravam aí: eu também era ‘pequeno’, sem recursos, do interior e sem crédito com ninguém além da minha própria torcida…

Brasão da sociedade esportiva do Gama

Brasão da sociedade esportiva do Gama

Eu porém era persistente: nas poucas oportunidades que eu tinha para jogar (que eram poucas mesmo, já que não tendo um SNES as opções eram apenas locadoras e casas de amigos), jogava sério, com afinco, estudando os adversários, aprendendo a aplicar e a me livrar de manhas e combos. Esta determinação me levou a um ponto onde, embora não fosse nem de longe o melhor, era um adversário a ser considerado.

Também tinha amigos muito habilidosos, o que ajudava bastante a manter o nível e sempre aprender coisas novas. Estavamos todos no mesmo barco, sem que ninguém se destacasse demais. Acontece que, um dia, alguém se destacou…

V de vingança

Embora eu fugisse dos arcades como o diabo foge da cruz, como contei na coluna passada, meus amigos iam aos fliperamas com uma certa frequência. Em geral iam em bando e me convidavam, mas quase sempre eu recusava, um pouco pelo perigo do local, muito pelo fato que eu era quebrado e não gostava muito de ficar ‘pescoçando’ com dinheiro alheio…

Uma certa tarde, aquele amigo que eu quase perdi numa partida de Street apareceu lá em casa, com mais dois colegas, eufórico: “Rapaz, você tem que nos ajudar!” Eu fiquei logo preocupado, perguntando o que tinha acontecido. Ele, muito agitado, respondeu: “É um babaca lá”. Eu já pensei que ele estava reunindo amigos para dar uma pisa em alguém, mas dado o porte físico de Seu Madruga que eu tinha descartei a idéia na hora. Falei então: “Entra, toma uma água e me conta o que aconteceu.”.

Seu Madruga

Seu Madruga

O tal babaca era um rapaz desconhecido da turma que tinha ido ao fliperama onde meus amigos estavam e tinha ‘rebocado’ a galera no Street, ganhando de todo mundo. Como eu narrei na coluna, meu amigo não ficava muito satisfeito em perder seguidamente, e por isso ele estava lá para falar comigo. Ele tinha guardado sua última ficha para eu ir lá e descontar as derrotadas dele.

Como falei, estávamos todos no mesmo barco, mas acho que, dado os eventos descritos na já citada coluna, ele acreditava que eu teria chances de executar sua vendetta contra o rapaz. Como amigo de verdade é aquele que já chega dando voadora, me preparei e fomos ao fliperama para o embate.

Meia hora de caminhada depois (pois é, vida de quebrado é assim mesmo) chegamos ao arcade. O algoz de meus amigos estava lá, tranquilo, zerando o jogo com o Ken. Assim que ele viu os meus companheiros já perguntou: “Vão entrar contra?” Eles assentiram, colocaram a ficha e me passaram o manche.

Como também já contei, tinha pouco contato com fliperamas e a combinação de manche mais seis botões para mim era novidade. Na dúvida, peguei o Balrog. O cara ficou surpreso com minha seleção, mas não comentou nada. Round 1, fight!

O grande prêmio

Jogar com Balrog, E. Honda, Zanguief ou T. Hawk contra bons jogadores não era uma idéia muito sábia, ainda mais se eles tivessem com o Ryu ou com o Ken. Fiz o melhor que pude, mas perdi o primeiro assalto. Meu amigo comentou com os outros: “Ele ficou doido? Porque o Balrog se ele joga mesmo é com o Ryu?”. Um dos outros amigos, que me conhecia a mais tempo e de outras partidas, emendou com cara de quem já tinha visto este filme antes: “Tu já vai ver…”.

No segundo round, consegui o que queria: deixei ele me dar uma voadora, mas o peguei no balão do soco forte, ou seja, as famigeradas cabeçadas. Daí a velha e boa manha do Balrog, da qual eu tinha o timming perfeito, entrou em cena: cabeçadas, soco de virada, defesa, cabeçadas de novo, etc, fim de round.

T. Hawk: o outro pesadão do Street que tinha pilão giratório

T. Hawk: o "outro" pesadão do Street que tinha pilão giratório

O rapaz ficou aturdido, pois acredito que ele não conhecia a trapaça.Eu já esperava uma reação negativa dele, mas como bom jogador ele sabia que tinha condições plenas de me derrotar, com ou sem manha. Eu sabia que ele não ia mais dar mole, e talvez não tivesse mais a oportunidade de aplicar o macete.

No terceiro assalto, ele já foi pulando para trás e tome hadouken, para me manter afastado. Eu fui pulando as magias, e tentando um aproximação. Tome soco para cá, shoryuken para lá e cada um tinha apenas uma reserva de energia e o tempo passando… Estava parecendo que ia empatar, mas para mim eu tinha um cisco a menos de life. Pensei: agora vai na doida! Pulei sobre a magia em direção dele e já sabia que viria um shoryuken. Daí não dei voadora, e fiquei segurando para trás, na esperança de uma defesa. Acabei tomando o golpe, mas o Balrog não caiu e lá estava o Ken voando…

Daí lá veio cabeçada. O rapaz endoidou e já soltou o controle, furioso. Eu nem precisei completar a manha, já que as cabeçadas foram o suficiente para minar o resto da energia dele. A galera foi ao delírio. Foi meu prêmio maior. Eu não tinha ganhado apenas a partida: tinha ganhado o respeito dos meus amigos.

Boss Stage!

Dias depois estava eu, numa das raras oportunidades que tinha de jogar numa locadora, sozinho, durante duas horas. Estava treinando com o Zanguief contra o computador mesmo quando um homem me perguntou se podia entrar no controle 2. Nesta locadora era permitido pegar o segundo controle sem custo extra, desde que o primeiro controle autorizasse. Concordei com a cabeça sem olhar para trás, e quando acabou o round que eu estava jogando, virei para identificar meu adversário. Para minha surpresa era ele: o cara!

O cara em questão, a qual vou me referir como ‘o viciado’ para preservar sua identidade, era um homem magro, alto, de cerca de 30 anos, que era considerado na região como o melhor jogador de Street Fighter II. Como ele preferia os arcades, quase nunca eu tinha oportunidade de vê-lo jogar. Agora eu tinha a chance de não só observar, mas também de medir forças com ele!

Street Fighter II no SNES

Street Fighter II no SNES

Ele pediu licença para acender um cigarro, deu uma tragada (e eu tossi do lado: eu tinha apenas 13 anos na ocasião) e escolheu o Ken. Eu já estava com o Zanguief mesmo, então o confronto ia começar assim.

Ele não tinha a tal fama à toa. Ele tinha muita precisão nos movimentos e golpes, e um bom timming para o shoryuken. Mas eu já andava escaldado de enfrentar o Ken com o Zanguief, e o contrário não valia: quase nunca alguém tinha a ousadia de escolhar tão obscura personagem contra ele. Dei bastante trabalho, cheguei a ganhar um round, mas a partida ficou com ele.

Ele apagou o cigarro, pois viu que a brincadeira ia ser um pouco mais séria do que ele tinha avaliado no início (num momento ele comentou que queria ‘brincar” um pouco…) e confirmou a segunda partida. Eu continuei com o russo, sabendo que se jogasse tudo que eu sabia havia uma chance de vitória. Primeiro round dele, segundo meu, terceiro round, soa, defende, hadouken, pilão… I win!

Uma vez no topo da montanha, o único caminho é para baixo…

Fiquei eufórico. Ninguém ia acreditar que eu havia derrotado ‘o viciado’, ainda mais com o Zanguief. O homem olhou para a tela, buscou mais um cigarro no bolso, acendeu de novo e falou: “É, vou chegando ali. Valeu.”. Ele desconectou o controle 2 e foi embora…

Eu fiquei sem entender nada. Será que ele tinha mesmo um compromisso? Será que ele não gostava mesmo de jogar no Super, só no arcade? Enquanto eu ponderava o abandono, ouvi um comentário de uns moleques que estavam assistindo às partidas: “Tu viu? O moleque ali ganhou do ‘aviciado’!”. Daí entendi o motivo da desistência.

Eu era um franco atirador: se eu ganhasse, ficaria feliz, famoso e tal. Ele era ‘o viciado’, a referência: se ganhasse, não teria feito nada mais do que esperaríam dele. Se eu perdesse, normal, era eu contra o melhor de todos. Se ele perdesse? Começaria a boataria, e sendo eu um desconhecido da maioria, logo o posto dele de melhor de todos seria questionado e ameaçado. Eu só tinha a ganhar, ele só a perder.

 

Uma vez no topo...

Uma vez no topo...

Então, na minha busca por um lugar ao sol, vi que mais difícil que chegar ao topo seria me manter lá, pois uma vez no topo da montanha, o único caminho era para baixo…

Nunca cheguei a ser muito melhor do que fui naquela época, e nem o melhor jogador de Street da minha região. Não ganhei campeonatos, nem troféus. Mas aprendi que teria que lutar muito para conseguir as coisas na vida, mas teria que trabalhar mais duro ainda para mantê-las…

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10 Comentários Add your own

  • 1. Lonios  |  março 26, 2009 às 10:02 pm

    No pain,no gain! :)

    Responder
  • 2. maxi2099  |  março 26, 2009 às 11:50 pm

    É como diz o Highlander: “no final só pode haver um”…

    Responder
  • 3. Krycov  |  março 27, 2009 às 12:33 pm

    Edsom… agora eu fiquei na duvida de qm era esse nosso amigo viciado… era um o Viciado X q só adanva na Geni e la na 30… ow o viciado Y que jogava Street no Kadim no segundo controle com o Ryu no LV 7?

    Responder
  • 4. EdSom  |  março 27, 2009 às 1:47 pm

    Era o da Geni e da 30 :)

    Responder
  • 5. Tottou  |  março 28, 2009 às 3:21 am

    Nossa, me lembrou de um viciado fumante (que eu e kaka chamavamos de cigarrette lol). O caba também era chamado de ‘viciado’ D; Encobava com Iori que era uma puctaria.
    Mundo dos games nos ensinanado a viver, ouvi dizer.

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  • 6. Bruno Silva  |  março 28, 2009 às 3:52 am

    Ahauhauhauhau boto fé! Eu também simpatizo com o Gama! O Dom Pedro é o time dos bombeiros, o Legião é o time do Legião Urbana, e o Brasiliense é o time do Luiz Estêvão, tinha o CFZ que era o time do Zico… o Gama é o único time sem rótulos no DF!

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  • 7. Krycov  |  março 29, 2009 às 2:39 am

    Bruno… apesar do Gama não ter um rotulo…. ele tem uma figura ilustre por traz do time… o Roberto Dinamite eh padrinho do time… lembro-me que uma vez, qnd treinava basquete no DEFER do Gama;;; fomos todos direicionados um dia para uma cerimonia de premiação ao craque… quase até peguei um autografo… pq qm sabe q sou um torcedor do Gigante da Colina… o Heroíco Portugues…

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  • 8. Kaka  |  abril 6, 2009 às 4:45 pm

    Haha, muito bom o texto. Filosófico e tal, dá muito o que pensar. :3
    Eu nunca fiz parte do topo em jogo nenhum dentro do meu grupo gamer. Antigamente, quando eu tinha tempo, eu ficava na média+++. Atualmente, tou na média—, me aproximando da tênue linha do que vocês chamam de “pato”. Mas, mesmo assim, quando enfrento um verdadeiro pato, ainda me preocupo em não perder. Posso não ser top, mas quero continuar na média! Nessa escalada, ninguém quer descer. :X

    Mas eu fiquei em 5º lugar no champz de Soul Calibur do último Duk Games, só pra constar k. :(

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  • 9. Velhos bons tempos « Bem Vindo a WarpZona!  |  abril 17, 2009 às 12:06 am

    […] depois de quase perder um amigo por conta de inúmeras vitórias sucessivas, de encarar um mala, de vencer o melhor de todos e de humilhar o chato, minha hora tinha chegado: ao fim da tarde, o placar era de 65 x 3. Para […]

    Responder
  • 10. Velhos bons tempos « Bem Vindo a WarpZona!  |  maio 22, 2009 às 1:40 am

    […] as lições que aprendi jogando Street Fighter II (clique nos números para as partes 1, 2, 3, 4 e 5), a coluna Velhos Bons Tempos retorna às suas origens, relatando as histórias sobre o tempos […]

    Responder

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