Velhos bons tempos

abril 17, 2009 at 12:00 am 18 comentários

por Toe Jam

Depois do Feriado de Páscoa (afinal, esta coluna é do tempo que nem música se ouvia na Sexta-Feira da Paixão…), a coluna Velhos Bons Tempos retorna com a quinta e última parte do especial sobre as lições de vida que aprendi jogando Street Fighter II.

No derradeiro capítulo, a confirmação de um conhecido ditado popular…O chato

A medida que os anos se passavam, os jogadores foram abandonando a jogatina de Street Fighter II. Uns por falta de tempo, outros por terem novos interesses, outros simplesmente porque o mundo anda e haviam muitos bons jogos que também mereciam atenção. Com isso era cada vez mais raro achar um jogador habilidoso para um racha.

Por conta disso também fui deixando o jogo de lado para me dedicar aos outros gêneros. Com o advento do Playstation (o primeiro mesmo), os simuladores de corrida ficaram impressionantes (quem não ficou de queixo caído com Gran Turismo?) e os RPGs foram para outro patamar também (Final Fantasy Tatics continua sendo o meu favorito até hoje). Mas o gosto pelo velho e bom Street continuava guardado dentro do peito.

FFT: um jogo onde os matemáticos arrebentam...

FFT: um jogo onde os matemáticos arrebentam...

Ao longo de minha infância e adolescência tive o desprazer de conviver com uma pessoa que, para preservar a verdadeira identidade, chamarei apenas de ‘o chato’. Ele era bem mais velho do que eu (coisa de 4 ou 5 anos, e na infância e adolescência 5 anos é muita coisa), e se alguém tinha que ser o melhor em qualquer coisa, esse alguém tinha que ser ele (isso, claro, na própria opinião dele e de seus amigos puxa-saco).

Quando contei a ele, certa vez, que tinha zerado o Battle Outrun, do Master System, ele logo alegou que era mentira minha, pois como eu teria conseguido zerar um jogo que ele mesmo não havia conseguido? O mesmo aconteceu quando eu e meus irmãos zeramos Rolo to the Rescue, do Mega Drive, em 100% (eu e minha mania…), onde ele argumentou que o jogo só ia até 95% (que era até onde ele havia chegado). A gota d’água foi quando eu afirmei, numa roda de conversa, que tinha vontade de entrar na Universidade de Brasília, a UnB.

Na ocasião eu ainda cursava a oitava série do ensino fundamental, e ele já cursava uma faculdade particular. Um puxa-saco dele se antecipou e emendou: “Tá maluco? Se ‘o chato’ aqui não conseguiu passar na UnB, e ele é muito mais inteligente do que você, como você vai conseguir?”. Como eu já estava acostumado com este tipo de patacoada, nem reagi. O outro ficou mais irritado e emendou: “Você acha que segundo grau é a moleza que tu está fazendo agora? Lá o bicho pega. Você só deve passar direto, e olha lá, em Artes e Educação Física!”. E como humilhação pouca é bobagem, ele ainda disparou: “A gente estuda em escola boa, particular. Tu estuda numa merda de escola pública e não tem dinheiro nem para um cursinho!”. Faltavam, no mínimo, 3 anos para eu prestar vestibular e já tinha gente me reprovando…

Simuladores de corrida: o único gênero que é indiscutivelmente melhor em 3D do que em 2D

Como sabemos, amigo de verdade é aquele que já entra na voadora, percebi que naquele grupo eu não tinha amigo nenhum e deixei de andar por aquelas bandas. Mas uma bela tarde, dois anos depois, o chato me encontra e fala: “Comprei um Super Nintendo com Street Fighter II. Não quer ir jogar comigo?”. Não deveria ir, mas fui.

O dia da caça

Não deveria ter ido pelo simples fato de que o chato vivia de me humilhar, e como ele sempre teve uma condição financeira muito superior a minha, as aquisições dele eram mais um pretexto para reforçar a idéia que ele era ‘o cara’, enquanto eu não era nem ‘rascunho de gente’. Mas fui porque, embora meio enferrujado no Street, me garantia e ia dar a ele ao menos motivos para repensar sua prepotência.

Battle Outrun, para Master System

Battle Outrun, para Master System

Ele na verdade era bom jogador de Street, e certamente daria trabalho no racha. Acontece que eu estava mordido de anos de humilhação, e era a hora do troco. Jogar o básico, Ryu vs Ken, não ia acrescentar nada. Se eu jogasse com uma personagem mais obscura e perdesse, ele ia ficar contando vantagem. Mas ele contava vantagem de toda maneira, então se eu ganhasse ele ainda ia soltar suas patacoadas, mas com certeza ia ficar zuretado por dentro.

Zanguief? Não, todo mundo sabia que era minha personagem favorita. Balrog? Certamente ele não ia apelar se eu recorresse à velha manha das cabeçadas. Aloprei e peguei o Dee Jay.

Eu não sabia as manhas do jamaicano new challenger, porque além de ser uma personagem mais recente no cast do jogo, eu tinha jogado pouquíssimas vezes com ele. Só que, logo no primeiro combate, descobri que um golpe dele, que era uma seqüência de socos (que era disparado com baixo carregado, cima e soco) era um excelente anti-aéreo se aplicado no timming correto. Daí era só coordenar ataques com este contra-ataque que os rounds estaríam no bolso…

Dito e feito. Fui emendando vitória atrás de vitória, sempre com o Dee Jay, e notando a crescente irritação do chato. Ele começou calado, depois soltou umas do tipo “o controle está falhando”, depois que “só pato usa manha” para então, mais tarde, deduzir que o golpe do jamaicano era “um bug do jogo”, que não tinha jeito de tirá-lo. Eu soltava um será, um pode ser, mas continuava a estraçalhar o chato sem dó nem piedade.

O famigerado anti-aéreo do Dee Jay

O famigerado anti-aéreo do Dee Jay

Com o contador marcando mais de 50 vitórias a meu favor, sem nenhuma derrota, e ele vermelho de raiva, resolvi trocar de personagem para não provocar ainda mais. Porém o mal já estava feito: jogador que fica nervoso em Street e quer ganhar de qualquer maneira perde de todo jeito…

Mais 10 partidas e ele resolveu desligar o videogame, alegando cansaço. Fui embora de alma lavada, e após este evento nunca mais jogamos junto, e depois de um encontro ou outro, nunca mais o vi. Mas havia chegado o dia da caça.

O dia do caçador…

Mas o mundo gira e o relógio continua sempre em frente, dando voltas. Havia um amigo meu (este amigo mesmo) que era uma peça. Também era mais velho (mais ou menos a mesma idade do chato), mas era gente boa, engraçado e humilde.

Ele sempre ia à locadora da Toinha para jogar Spiderman and X-men: Arcade’s Revenge, do Super NES. Para quem não conhece, é um jogo dos mais difíceis, e a molecada acompanhava diariamente a obstinada tentativa dele em terminar o jogo. Ele não jogavam muito Street por conta disso, e quando o fazia em geral era acompanhado por seus dois amigos mais próximos.

Spiderman and X-Men: Arcades Revenge

Spiderman and X-Men: Arcade's Revenge

O gosto dele por videogames era tamanho que ele chegou a trabalhar como funcionário de um fliperama. Seu bom trato social e trabalho duro logo o levaram à gerência do estabelecimento. Percebendo que as máquinas ficavam ligadas o dia todo, tendo jogadores ou não, e que o movimento estava baixo, ele tomou duas providências: primeiro ele testou todas as máquinas e ajustou a dificuldade para os jogadores ficarem, em média, jogando o dobro do tempo que jogavam até então; segundo, passou a tirar um tempo por dia para jogar Tekken com os clientes, que passaram a ir com mais freqüência por conta dos rachas. Ele chegava mesmo a dar fichas para os adversários mais recorrentes, motivando-os a continuar indo ao estabelecimento.

O resultado de suas ações foram um aumento, já no primeiro mês, de 25% da arrecadação do fliperama! O trabalho dele vingou a tal ponto que ele passou pela gerência de cada uma das casas da rede, para fazer o ajuste em cada uma delas…

Eu nunca tinha jogado Street com ele até que um dia, pouco tempo depois do evento com o chato, ele me convidou para um racha na casa dele. Ele finalmente tinha adquirido para si um Super NES e também uma cópia do jogo. Neste caso eu deveria ir, e fui.

Fui porque ele era gente boa e engraçado, então seria uma tarde divertida. Deveria ir porque havia mais uma coisa para eu aprender…

Em geral ele só jogava com a bicha loira (era como ele chamava o Ken), mas também dava trabalho com o Guile. Acontece que ele executava com maestria a manha de dar chutes fracos abaixado e logo em seguida emendar um balão. Como manheiro profissional eu sabia que a única saída segura para estes casos era um shoryuken no tempo certo. Mas o cara era matreiro e sempre variava, ora parando os chutes, ora dando o balão, ora só chegando perto e defendendo, e por aí vai.

Rolo to the Rescue: o jogo que só vai até 95%...

Rolo to the Rescue: o jogo que só vai até 95%...

Como consequência, para cada uma vez que eu escapava da manha eu tomava dois ou três balões, e daí não tem life que dê conta. Eu estava jogando o meu melhor, e era só eu ficar numa posição boa para vencer o round ele falava com aquele jeito engraçado dele: “Ôpa, perigou! Hora da manha suja…” e invariavelmente vencia o assalto de virada.

Desta maneira, depois de quase perder um amigo por conta de inúmeras vitórias sucessivas, de encarar um mala, de vencer o melhor de todos e de humilhar o chato, minha hora tinha chegado: ao fim da tarde, o placar era de 65 x 3. Para ele…

E entendi o real significado do ditado: Um dia da caça, outro do caçador…

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Fase misteriosa de Super Mario Bros. 3 Novos bons tempos

18 Comentários Add your own

  • 1. Ryunoken  |  abril 17, 2009 às 1:36 am

    AeÊêÊ, o retorno de Edsom (eu e o Krycov falavamos de você hoje!) e o final desse arco do Velhos Bons Tempos! Quase um livro, hein? 65 x 3! Caramba!

    Responder
  • 2. Lonios  |  abril 17, 2009 às 3:48 am

    E eu achando que minha derrota de 23 x 3 em Tekken 5 era muito! o.O

    Responder
  • 3. Michael Robert  |  abril 17, 2009 às 5:03 am

    Cara, essa história me lembrou meu passado, aconteceu a MESMA coisa comigo… por acaso nao fui eu que te dei pal em STREET NAO? Mas tá, Sou um jogador clássico que evolui junto com os games, desde os meus 5 anos jogando atari até hoje em meu pc, E tive a época de ser o famoso SAPO que ficava grudado em casas de video games, onde assim consegui confiança e também fui gerente de uma Loja em minha cidade. Isso me faz penssar… Que tempo bom que não volta nunca mais…

    Ajuda meu blog aew… minhas inspiracoes como Campo Minado, Warpzona, levelGamer e Gizmodo me fizeram abrir um blog… que ainda estou em matando para montalo… da uma mao ai PLEASE, Ou pegarei o AKUMA de RESIDENT 2 para de detonar. =] link http://www.elettron.blogspot.com

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  • 4. Michael Robert  |  abril 17, 2009 às 5:06 am

    OBS… Fui jogar pela primeira ves STREET IV NO XboxsT360 com um cara Amigo meu, que estava na posicao 60 de 300.000 da live, no final de uma madrugada paramos de jogar e o placar depois de 132 lutas… 66 a 66, será isto conspiração ou será menssagem subliminar? DETALHE 2 X360 QUEIMADO lol…

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  • 5. EdSom  |  abril 17, 2009 às 1:25 pm

    Michael,

    certamente não foi você meu algoz heheh

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  • 6. Intentor  |  abril 17, 2009 às 6:15 pm

    Muito bom!

    Street Fighter também é cultura das boas! =D

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  • 7. Déivide / SetsunaBR  |  abril 17, 2009 às 6:50 pm

    Pena que tive poucas oportunidades de jogar SFII com você edson mas as lutas foram boas! Quem sabe a gente joga algum dia novamente.

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  • 8. Krycov  |  abril 18, 2009 às 12:26 am

    OOOO Cumpadi… c ta vivo? Cria vergonha nessa cara e aparece d vez enqnd… acho massa vc manter a Id nos seus relatos pq eu fico tentando lembrar qm era as figurinhas… algumas eu lembro fisicamente… mas o nome.. pufs…. sem chance…Na nossa epoca jogar video game alem de uma aventura era uma experiência de vida… e que com certeza…. acrecentou alguma coisa na sua dosagem certa para as nossas vidas. Mas o mais importante, sem sombra de duvidas, foram as amizades que cutivamos e preservamos até hj…. e isso já se vão 15 anos… rsrsrsrs

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  • 9. bonachovski  |  abril 18, 2009 às 5:11 am

    kkkkkkkkkkkkkkk…não lembrava que Street podia gerar histórias tão boas…e ainda tem gente que recriminava os flipers como o da Toinha…se elas soubessem das amizades que dali sairam…

    Parábens, ótimo texto…me deixou muito saudosista…

    http://bonachovski.wordpress.com

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  • 10. Tottou  |  abril 18, 2009 às 3:41 pm

    Surra, hein, chapa. Mas fico feliz que tu aguente as mais de 60 chacotadas sem choro D: Sou assim também, lembro de jogar Garou a primeir avez com quem sabia, me humilhava, vencia na maldade, quando aprendi e comecei a dar surra, nego não joga mais comigo, lol :]
    Spiderman and X-men: Arcade’s Revenge me lembra que posso usar save state pra zerar esta bosta. Quando jogava isso no SNES, sofria em cada fase, e acho que nunca terminei 2 fases de um mesmo x-men :O . Noobagens da infância.
    Mas, bom, continue, é apanhando que se aprende >D

    Responder
  • 11. EdSom  |  abril 18, 2009 às 5:57 pm

    Déivide,

    a falta de mais confrontos entre nós fez com que você não aparecesse como um personagem dessa série do Street, mas que sabe eu conto um caso ou outro das jogatinas que tivemos.

    Tottou,

    a vida é assim mesmo, às vezes a gente bate, às vezes apanha feio…

    Aos demais, obrigado pelo apoio. A série do Street acabou mas daqui 15 dias a coluna continua com outros causos.

    Responder
  • 12. Andre Breder  |  abril 18, 2009 às 10:19 pm

    65 x 3!!! Pô, o cara era bom no joystick hein?

    Responder
  • 13. Rafael "Barry" Ventura  |  abril 23, 2009 às 1:49 am

    Só não entendi uma coisa: qual é a da foto da chamada?

    Responder
  • 14. EdSom  |  abril 23, 2009 às 3:12 am

    Dei uma “viajada boa” para arrumar esta foto…

    Como não sou bom desenhista para ilustrar as chamadas, vou dando uma procurada no google images para ver se acho uma foto relacionada com o tema central. A lição central desta coluna era “um dia da caça, outro do caçador”.

    Queria achar alguma situação de um caçador atrás de um raposa ou algo assim, a acabei achando esta foto desta raposa exótica (a raça dela me fugiu agora), que representaria ‘a caça’. Meio forçado né? hehehe

    Aprender a desenhar esta na minha lista de prioridades e atualmente ocupa a posição #97…

    Responder
  • 15. Krycov  |  abril 23, 2009 às 9:01 pm

    97?!?! ta bom edsom… no meu caso é a opção logo a seguir a de dominação mundial… assim que este planetazinho for meu, eu aprendo a desenhar… rsrsrsrs… mas falando sério… desenhar está fora de cogitação pra mim…mãos de Troll lembra… estas mãos foram feitas somente para bater esmagar e destruir… ahehahehahe…. mas acho q vc devia levar mais a sério a opção de aprender a jgr o FFT… senão qnd agente parar pra jgr mesmo… vo ter q t dar uma taca… hhrahrhahah

    Abraços

    Responder
  • 16. Rafael "Barry" Ventura  |  abril 25, 2009 às 2:35 pm

    Hitler quase conseguiu e ainda assim sabia pintar, não é desculpa! =P

    Responder
  • 17. Kaka  |  maio 1, 2009 às 4:16 am

    Sabe qual é uma das piores combinações ever? Aquele cara fking chato e fking difícil de derrotar em um jogo. É pra acabar com a auto-estima de qualquer um! :X
    E, omg, Spiderman and X-men: Arcade’s Revenge! Como eu sofri com esse jogo. Esse dai nem no emulador, com save state/ load state, eu consegui zerar.

    Responder
  • 18. Velhos bons tempos « Bem Vindo a WarpZona!  |  maio 22, 2009 às 1:40 am

    […] as lições que aprendi jogando Street Fighter II (clique nos números para as partes 1, 2, 3, 4 e 5), a coluna Velhos Bons Tempos retorna às suas origens, relatando as histórias sobre o tempos de […]

    Responder

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