Modern Warfare: uma super propaganda do exército americano?

fevereiro 2, 2010 at 4:30 am 21 comentários

Por Barry Burton

Senti-me extremamente incomodado ao jogar pela primeira vez Call of Duty 4: Modern Warfare na semana passada.

Não pretendo neste post discutir a qualidade do jogo em si, mas sim qual o seu propósito no mundo atual – ou melhor, moderno. Não digo que o que escrevo abaixo foi intencional por parte dos desenvolvedores, mas acredito piamente que a mensagem passada pelo jogo é algo bem próximo do que senti. E provavelmente muita gente nem pensou a respeito, o que é ainda mais perigoso e comprova minha teoria.

Fato é que, após ver tanto debate sobre a tal fase terrorista de MW2, resolvi jogar o primeiro que nunca havia experimentado ainda. Na verdade, nem gosto tanto assim de FPSs mesmo. Não sei quanto a vocês, mas logo nos primeiros instantes, nas primeiras fases, já comecei a me sentir mal, e gostaria de compartilhar estes sentimentos. Por isso, já aviso:

[ATENÇÃO: SPOILERS!!]


Passei a fase de treinamento meio que correndo e inclusive até brincando de pular feito um macaco na frente do meu capitão, mas assim que começou a primeira fase (chamada “Crew Expendable”, ou “Tripulação Descartável”), na qual invadimos um navio russo, fiquei assustado com a frieza com que tudo é retratado: nós todos matamos à queima-roupa soldados que estavam apenas dormindo! O motivo disso tudo? Supostamente carregavam arsenal nuclear e inteligência a respeito de um revolucionário árabe (chamado no jogo de ultranacionalista).  Logo em seguida, sou bombardeado com cenas que mostram um Oriente Médio completamente absurdo e estereotipado, literalmente com um tiroteio a cada esquina e militares vidrados, que matam um presidente eleito “por direito”, o que, é claro, é justificativa mais do que suficiente para os EUA e a Inglaterra enviarem dezenas de milhares de soldados para matar e morrer.

No restante do jogo, não há mais nenhuma justificativa ou explicação para nenhuma das cenas de atrocidade. Você é um soldado, você recebeu ordens e você vai cumpri-las. Simples assim. Não seria isso um pseudo-conformismo com relação à situação atual do Oriente Médio? Não é bom para os americanos realmente não pensarem muito sobre tudo o que acontece por lá? Por que em nenhum momento o jogo diz que os EUA têm interesse no petróleo e na economia baseada em guerra e belicismo, que tem como maior fonte de renda exatamente esta região do globo?

O tal comandante ultranacionalista é uma clara alusão ao Osama Bin-Laden, e sua aparição (burra) ao final do jogo, esperando apenas levar o tiro nas costas vindo de um soldado anônimo, mesmo que britânico, deve ser o “sonho molhado” de muitos republicanos.

Convenientemente, você joga ao lado do serviço secreto inglês (o SAS, do qual Liquid Snake também fez parte =P) e dos Marines americanos, os famosos pau-pra-toda-obra. Seus personagens, contudo, assim como os membros de seu batalhão, são completamente desprovidos de qualquer personalidade. Isso também não pode ser um indício da pasteurização com a qual o exército imbui seus soldados – o que inclui a raspagem do cabelo e barba, a ponto de fazê-los não se importarem sobre quem vive e quem morre no campo? Se houvesse algumas cenas além das de guerra, na qual os soldados mostrassem um pouco mais de seus gostos, opiniões, com certeza o jogo tomaria um rumo bem diferente. Talvez você se importasse com os soldados, suas perdas ficassem mais significativas. Os jogadores se questionariam se a “guerra contra o terror” realmente vale o que dizem. Não acredito que foi sem razão o fato de todos serem apenas “bots” lutando ao seu lado.

Por que a cada instante eu tenho que ser lembrado que um F-22 custa mais de U$ 150 milhões? Para que todos entendam pra onde vai o dinheiro dos impostos? Para que os soldados entendam porque é mais importante proteger um tanque do que sua própria vida?

Mas a cena que mais me deu calafrios foi a que me deixou no controle de um bombardeiro. Ver aquela cidade em miniatura, táo distante, pronta para explodir apenas com o meu desejo e um apertar de botão. O que me deu medo não foi o fato de EU poder fazer isso, desintegrar algumas dezenas de vidas em um instante. E sim que provavelmente agora, neste intante, tem alguém fazendo isso. E com os comentários sarcásticos de seus companheiros, como “Ka-boom!” e “Good Kill” sendo repetidos em sua orelha e sendo motivo de piada no jantar. “Viu aqueles três russos tentando pular o muro? Haha, esperei com que eles achassem que estava seguro e aí explodi um por um!”.

Deus?

 

Aliás, cada pessoa executada friamente por você – ou seja, quando não está no meio do tiroteio desenfreado – é rapidamente amenizado por uma piadinha de um de seus companheiros. “Tango down”, “Keep quiet”.

Enfim, o exército é claramente apresentado como uma força a ser reconhecida e admirada, nobre, honesta e verdadeira, agindo apenas por causas justas. A mim, parece uma oportunidade perdida de discutir a guerra, seja isso calculado ou não – afinal, Modern Warfare 2 já é um dos jogos mais vendidos da história. Quem pensa apenas “é só um jogo de tiro” está completamente desligado da atualidade, pois o videogame provavelmente é a mais poderosa forma de comunicação e entretenimento entre os jovens – exatamente os jovens que vão para os campos de guerra. Não acredito que seja apenas coincidência.

Caso ainda duvidem, o próprio exército norte-americano já disse que jogadores de FPS são de 10 a 20% mais eficientes em guerra, ou, nas palavras dele, em “combate ao terror” do que os não-gamers.

E vocês? O que acham?

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21 Comentários Add your own

  • 1. Intentor  |  fevereiro 2, 2010 às 7:47 am

    Excelentes observações, caro Barry! Porém, independente de MW ter algum cunho cultural e até filosófico, o gamer médio não está nem aí para a história – quer mais é saber de matar os (supostos) inimigos pulando todas as cutscenes.

    Responder
    • 2. Rafael "Barry" Ventura  |  fevereiro 3, 2010 às 2:46 pm

      Haha, pior que deve ser.

      Mas, pensando bem, isso é tão triste e prolemático quanto…

      Responder
  • 3. lgjOni  |  fevereiro 2, 2010 às 7:46 pm

    Embora concorde com muitas coisas, com outras, nem tanto… Mas, os jogos, por estarem se aproximando cada vez mais ao status de arte, acabam abrindo espaço para visões pessoais de eventos, enredos e lições de moral… Isso tudo cabe ao jogador avaliar… Também poderiamos aplicar essa visão crítica para outros tantos jogos, como RE por exemplo, embora estejam lá zumbis, antes eram humanos, e são no fundo mais vítimas do que o próprio jogador na história, e poucos jogadores citam isso, na verdade a grande maioria acha o máximo estourar as cabeças dos zumbis que lá estão… E tantos outros jogos podem ser levados ao mesmo patamar em termos de crítica, o que acaba clamando por maior criticidade no Modern Warfare, é a ‘atualidade’ dos fatos, e a imagem tiranizadora e opressora que muitos temos dos EUA…
    O Modern Warfare 2, vai um pouco além e mostra sim a crueldade da guerra, para ambos os lados, os ‘mocinhos’ ou os ‘bandidos’ deixando perceptível que em uma guerra, não existem mocinhos ou bandidos, apenas interesses diferentes…
    Apesar da visão que muitos jogadores têm, de que os jogos se aproximam de obras de arte, eles ainda são produtos de consumo, estão mais para filmes ‘block buster’ cujo objetivo é principalmente lucrar, do que filmes ‘cabeça’ que nos forçam a refletir sobre o mundo à nossa volta…

    Responder
    • 4. Rafael "Barry" Ventura  |  fevereiro 3, 2010 às 2:51 pm

      Não sei, Igjoni, eu penso que toda obra criada pelo homem tem alguma mensagem para passar, sendo ela “comercial” ou não. Pode ser que a obra não passe o que o autor quis, talvez por incopetência, mas algo tão bem-feito e bem cuidado como CoD com certeza foi muito bem pensado.

      E o que você diz sobre RE, concordo. Zumbis são ótimas analogias à massificação. Até mesmo em Mega Man e Mario pode-se tirar lições sobre como o autor pensa no mundo, porém esses jogos têm a “vantagem” de serem, talvez, metafóricos. O que se aprende de uma fantasia é mais subjetivo.

      Não é o caso de CoD.

      Responder
  • 5. maxi2099  |  fevereiro 2, 2010 às 9:48 pm

    É por isso que eu prefiro Deus EX. Vê só se Call of Duty deixaria o jogador escolher se unir ao computador mais avançado do mundo e se tornar Deus ou então virar um membro chave dos Illuminati.

    Responder
    • 6. Rafael "Barry" Ventura  |  fevereiro 3, 2010 às 2:47 pm

      Você não tem ideia. Call of Duty é quase um House of the Dead com visão em 360º. Acho que é um dos jogos mais scriptados e lineares que já vi na vida.

      Responder
  • 7. mcs  |  fevereiro 3, 2010 às 12:53 pm

    Grande matéria.

    Sem dúvida, os EUA usam as mídias como forma de propaganda de sua guerra, e com os games acharam a ponte ideal para atingir aos jovens – isso não é mera coincidência.

    Sempre disse e vou repetir aqui: videogame é uma forma de arte, pois pode causar no ser humano uma reflexão sobre o mundo e sobre si mesmo. Mas realmente os jogos poderiam achar mais espaço no meio de tanta ação e CGs para momentos onde a arte se mostra.

    Com a idade média dos gamers estando próxima de 30 anos, é natural que eles queiram jogos com maior profundidade filosófica e cultural e não apenas entretenimento pelo entretenimento.

    Responder
    • 8. maxi2099  |  fevereiro 3, 2010 às 9:43 pm

      Eu acho o contrário, quanto mais um jogo tenta se afastar de ser uma forma de entretenimento, pior ele vai ficando. Esse também é um dos motivos que me faz acreditar que jogos e arte podem andar perfeitamente de mãos juntas mas nunca ser a mesma coisa.

      Responder
      • 9. Cesar  |  fevereiro 4, 2010 às 2:44 pm

        No caso, MW é puro entretenimento e imagino que por isso mesmo seja “pior” do que poderia ser. Acho um pouco precipitado dizer que quando os jogos se distanciam do entretenimento eles ficam piores, porque além de terem jogos e jogos, existem os tais serious games cujo objetivo é treinamento e aprendizado e nem por isso podemos partir do pressuposto que são ruins por não serem tão divertidos.

      • 10. Rafael "Barry" Ventura  |  fevereiro 5, 2010 às 9:37 am

        Acho que você está confundindo as bolas. A pintura, por exemplo, é um forma de expressão artística, mas isso não quer dizer que todas as pinturas sejam arte. Da mesma forma, videogames também o são. Eu considero que um jogo extremamente refinado de um ponto de vista de jogabilidade é uma obra de arte, como por exemplo o primeiro Prince of Persia ou Resident Evil 4.

        Acho que o que você quis dizer é com relação a jogos “viajados”, que dão mais imprtância à beleza plástica ou algum ideia maluca do que ao jogo em si.

        O problema é que o conceito de arte é subjetivo.

  • 11. Glauber  |  fevereiro 3, 2010 às 8:23 pm

    É uma coisa a se pensar, assim como quaisquer teorias da conspiração bem formuladas.

    Porém, não dá pra descartar o simples fato de que, ‘comercialzíssimo’ como o CoD é, ainda mais o MW1 e 2, é muito melhor centrar esforços e gastar dinheiro em se fazer algo divertido – unido a um suposto senso de “realidade” via generalização (o que é comum de dos americanos, facilmente consumível), do que pensar numa crítica social bem formulada, numa maneira de se passar uma mensagem filosófica sem que houvesse censura.

    E se pudermos considerar mais coisas, da maneira que você descreveu (eu também não joguei, estou indo na sua) pode-se até dizer que o negócio tem uma crítica implícita, muito bem colocada no jogo, onde quem não se importa/não sabe simplesmente não precisa interagir com isso, e quem é sensível às questões da guerra vai perceber e vai se incomodar e vai se concientizar.

    Divagando…

    Responder
    • 12. Rafael "Barry" Ventura  |  fevereiro 5, 2010 às 9:39 am

      Haha, talvez tenha sido meio de propósito mesmo, “tocar certas pessoas”. Mas não acredito muito…

      E, como disse no começo do texto, não acredito que tenha sido intencional esse efeito por parte dos desenvolvedores, então não acredito em “conspiração”. Mas que pode ter sido algo inconsciente, que é tão perigoso quanto, pode.

      Responder
  • 13. Tuti Bueno  |  fevereiro 4, 2010 às 1:48 pm

    Grande Rafael!
    Gostei do seu texto, nos faz pensar de verdade o quão poderosos os games atuais estão, isso tanto na questão simulação da realidade quanto na formação de opinião de um indivíduo.
    A maioria dos comentários que li até agora mostra que o game está aberto às mais variadas interpretações pessoais , inclusive à minha rsrs.
    Cheguei a falar para vc que eu não achava que o exército estava envolvido no projeto, mas pensando bem, como será que o game obteve tantas informações sobre as mais varias armas e veículos do exército americano? Claro que com o apoio do exército. Isso sem falar nas táticas e simulações de missões.
    Creio sim que o game vai além da intenção de mostrar a realidade total da gerra moderna. Ele é um possível convite para futuros recrutas correndo atrás de adrenalina e patriotísmo.
    Não vou negar que os brinquedinhos da guerra são muuuuito legais ;), claro que digo isso para me divertir no game pois a realidade é triste demais. Alguns outros brinquedos: Internet, GPS, visão noturna/térmica, games e muitas outras inovações que ainda teremos contato. Tudo proveniente da guerra.
    Bom, é isso aí!
    Abraços

    Responder
    • 14. Rafael "Barry" Ventura  |  fevereiro 5, 2010 às 9:40 am

      Sim, não acho que o exército tenha pago pra fazer ou algo assim. Mas eles também não tiveram nada contra, hehe. Principalmente porque não mostram nada de sujo deles, mesmo.

      Responder
  • 15. Cesar  |  fevereiro 4, 2010 às 2:58 pm

    Rafael, mais uma vez estou impressionado com a clareza das idéias e sua fluência na escrita. Acho que juntos podemos dominar o mundo rs.

    Você expressou muito bem o desconforto que senti quando assisti pelo youtube a tal fase do aeroporto do MW2. Aí me lembrei que produzir jogos é hoje uma grande responsabilidade, e em segredo até dou razão pros federais que querem proibir jogos violentos, preconceituosos e por aí vai.

    Além disso, tem aquele lance que conversamos outro dia, MW recebeu um investimento promocional pesado, enquanto que jóias como Little King Story e tantos outros passam despercebidos pelos gamers menos criteriosos.

    Abração!

    Responder
  • 16. Cesar  |  fevereiro 4, 2010 às 3:11 pm

    Olha que disparidade, quase tudo vendido nos eua:http://jogos.uol.com.br/ultnot/multi/2010/02/03/ult530u7564.jhtm

    Responder
  • […] dizem que o jogo é somente propaganda do exército (que propaganda massa ein!), mas que o caras tem investido forte em publicidade isso é evidente, […]

    Responder
  • 18. Como estragar Goldeneye «  |  agosto 24, 2010 às 1:25 pm

    […] removidas do jogador, que basicamente apenas segue um roteiro, tornando-se assim apenas um clone de Modern Warfare – um jogo que não passa de um shooter on rails super valorizado. Não é de se estranhar, […]

    Responder
  • 19. DoubleJump » Blog Archive » Como estragar Goldeneye  |  agosto 26, 2010 às 12:33 pm

    […] removidas do jogador, que basicamente apenas segue um roteiro, tornando-se assim apenas um clone de Modern Warfare – um jogo que não passa de um shooter on rails super valorizado. Não é de se estranhar, […]

    Responder
  • 20. Roach  |  outubro 17, 2010 às 7:00 pm

    Acho que esses jogos sao feitos mais para a diversão mais é claro incentivam muitos jovens eu mesmo tenho vontade de servir o exercito coisa que antes de MW eu nem pensava mais é fato que quanto mais jogo mais me sinto um soldado no campo de batalha !

    Responder
  • 21. paulo  |  março 2, 2011 às 12:12 pm

    você precisa de uma namorada!
    jogue o jogo, veja o filme ouça a musica, e divirta-se!
    quer fazer diferença não vote no tiririca!

    Responder

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