“Fazedores” de dinheiro

março 9, 2010 at 11:17 pm 7 comentários

por Toe Jam

No dia 04 de março deste ano o site Siliconera noticiou que a Sony registrou uma nova patente: as demos “degradáveis”. A idéia patenteada é que uma demo contenha o jogo completo (ou quase completo) disponível na primeira execução da demonstração. Contudo, a medida que o jogador for avançando, seja no número de partidas jogadas, seja pelo tempo de jogo, a demo desabilitaria progressivamente características do jogo, através do bloqueio de níveis, remoção de personagens jogáveis, redução do nível de dano das armas, perda de níveis de experiência já conquistados ou até mesmo diminuição de canais de sons e da paleta de cores.

O objetivo desta patente é claro e evidente: forçar a aquisição do jogo completo e, como consequência, “fazer” mais dinheiro. Empresas em geral, inclusive as desenvolvedoras de jogos, são empresas com fins lucrativos e não há nada de errado em buscar alternativas para ampliar seu fluxo de caixa. Entretanto é preocupante quando estas medidas vão na contramão de um princípio básico do comércio: satisfazer seus clientes.

Continua após o salto.

Atualmente é cada vez mais comum os executivos das empresas ligadas aos videogames tomaram atitudes como esta, que privilegiam o lucro apenas, sem levar em consideração a fonte do dinheiro (os consumidores), como se dinheiro fosse “feito”. Veja a situação: você, como jogador, passa a ter que baixar uma demo ainda maior que as atuais (que já são deveras grandes), tendo que gastar assim seu tempo, sua banda de conexão e seu console (que fica sujeito a superaquecimento e outros defeitos devido ao tempo prolongado de funcionamento). Após isso, ao começar a investir seu tempo no jogo, você vai sendo penalizado progressivamente, tornando sua experiência cada vez menos agradável (e, arrisco dizer, até irritante). Qual foi o seu crime, para merecer tal punição? Você se recusou a comprar o “maravilhoso, único e sensacional” produto daquela empresa e, por isso, merece um castigo, não diversão.

Alguém pode argumentar, com justiça, que produzir um jogo custa caro e que a empresa precisa ao menos recuperar o investimento da produção. Ora, que nos dêem motivos então para comprar os jogos, não desistir deles de vez! Uma demo deve servir como um incentivo à compra, não o contrário. Se a produção uma demo extrapola o prazo do projeto ou não se encaixa no orçamento da empresa, então não se produza nenhuma demo, e concentre-se todos os esforços no próprio jogo, mas não me venham com uma demo remendada que vai me penalizar progressivamente até que eu entregue meu dinheiro ou desista do jogo de vez.

Imaginem a seguinte situação: você vai a um restaurante e vê no cardápio que o estabelecimento oferece um frango assado como amostra grátis. Você fica alegre e aceita a oferta prontamente. Assim que o prato chega, você se arruma na cadeira, ajeita o gardanapo e pega os talheres. Mas no momento da primeira colherada o garçom diz: “Viu que belo prato? Vamos tirar o peito e as coxas, pois você já pôde ver como nosso frango é delicioso!”. Você, sem entender nada, fica com um prato de asas e pescoço. Mirando numa asinha para tira gosto, o garçom observa sua intenção e fala: “Asa? Ok, vou levar o resto” e tira o prato, te deixando com um único pedaço do galináceo na mão. Resignado, você se prepara para a primeira mordida quanto é interrompido uma vez mais pelo atendente: “Vai comer? Espere um pouco pelo tempero!”. Ele retorna com uma vasilha e embebe o pedaço em um líquido transparente e de odor forte. “Que raios de tempero é esse?”, você questiona indignado. “Qboa, isto é, água sanitária, senhor” ele responde, com a mesma face sem expressão de sempre. Se, por ventura, você se atrevesse a não adquirir o frango “completo¹” e resolvesse ainda assim degustar este prato um tanto quanto exótico, veria o garçom intervir uma última vez, após a segunda dentada: “O osso, por favor?”.

E os “fazedores” de dinheiro se surpreendem depois quanto olham as estatísticas e vêem cada vez mais pessoas abandonando os videogames…

¹ Naturalmente, após adquirir o frango “completo” por um preço premium, você só poderá obter a experiência total do sabor, “na íntegra”, se adquirisse os “conteúdos extras”: a farofa, a salada, o arroz, o refrigerante, etc.
Nota: A imagem que ilustra este post foi retirada do blog A ilha das flores, e o original pode ser encontrado aqui.

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7 Comentários Add your own

  • 1. maxi2099  |  março 9, 2010 às 11:50 pm

    O pior disso tudo é que vai ser um grande passo para a eliminação da mídia física para os jogos, já que eles já serão a própria demo.

    Responder
  • 2. Toe Jam  |  março 10, 2010 às 8:41 am

    É até mais triste que isso, maxi: eles têm a intenção de lançar estas demos em mídias físicas. Daí o distribuidor passa a vender estas demos a uma pequena fração do preço do jogo completo (e consequentemente reduzindo sua participação no lucro) e, caso o jogador queira desbloquear o jogo completo, pagará o restante diretamente para a produtora.

    Daí a gente, consumidor, dança de novo: para que raios me servirá um disco de um jogo incompleto quando o servidor de autenticação que me permite acessar o jogo completo sair do ar ou for desativado permanentemente? Não terei eu direito a um jogo que eu terei pago por ele completo? Como falei, pouco se importam com a gente, só com a grana.

    Responder
  • 3. maxi2099  |  março 10, 2010 às 9:49 am

    Pois é, é o mesmo problema de Spore. Quando a EA resolver tirar do ar o serviço de atendimento daqui a alguns anos o jogo não vai funcionar mais. É preferível ter o Spore pirata do que o original, porque ele pelo menos vai poder ser jogado de novo sempre.

    Responder
    • 4. Rafael "Barry" Ventura  |  março 10, 2010 às 10:19 pm

      É, esse é um ponto real. Tem muito jogo que depende unicamente dos servidores pra ser bom, como por exemplo 80% dos FPSs que só servem pra multiplayer e possuem um singleplayer meia-boca só pra tapar buraco (CoD, Halo etc.). Também estou pra ver o dia em que vai acontecer alguma coisa com a Steam (Valve falir, servidor dar pau etc.) e todo mundo perder centenas de dólares.

      Mas, infelizmente, o futuro dos jogos realmente está na distribuição digital. Não vai ser nessa geração, nem na próxima, mas muita gente acha mais cômodo baixar o jogo e tê-lo no HD, sem precisar pagar a mais pra lojistas e distribuidores. Eu mesmo digo que fiquei bastante satisfeito de comprar Stardust, Shatter e Burnout pela PSN, pela comodidade e preço, apesar de ainda preferir, como colecionador, ter os jogos na caixinha.

      Quando houver algum sistema de venda de jogos virtuais “usados” (algo como vender a licença de uso do produto), aí sim acabam as lojas de vez.

      Responder
  • 5. Rafael "Barry" Ventura  |  março 10, 2010 às 10:27 pm

    Toe Jam, concordo com muito do que você diz (e achei o exemplo do frango hilário!), mas, por outro lado, são apenas demos!

    Pense: demos, teoricamente, servem unicamente pra você conhecer o jogo e ter certeza de que a compra faz sentido pra você. Por que eu compraria Stardust, por exemplo, se a demo já tivesse duas fases inteiras sem limite de tempo?

    Também não acredito que o esquema de “degradação” aconteça com todas os jogos. Duvido muito, por exemplo, que colocariam um download de 40 giga pro GoW3. Muitos jogos continuarão com o esquema de demos tradicionais.

    Isso funcionaria bem pra um jogo tipo Tetris. Da primeira vez que se joga, não há limite de tempo. Dá pra se ter uma ótima ideia de como o jogo é e tal. Da segunda vez, duraria 5 minutos. Você vê o quanto a gameplay rica fica limitada e tem vontade de jogar de novo. Da terceira, 3. Se quiser jogar o jogo de verdade, pague por ele. Não vejo muito mal nisso. Não está longe do que acontece hoje. Foi o que me fez comprar Stardust.

    Agora, se vai ser em mídias físicas mesmo, a não ser que venha de brinde no McDonald’s, é esquisitíssimo mesmo =D

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  • 6. Toe Jam  |  março 11, 2010 às 9:52 am

    Também já comprei jogo motivado por uma demo (Pokemon Rumble). Acredito que a demo deve ser uma coisa simples e honesta, que dê uma visão do gameplay e do jogo, de forma rápida e objetiva.
    Definitivamente este esquema “degradante” não me agrada, e acredito que possa ser um tiro no pé da Sony se for realmente implementada.

    Como é apenas uma patente, existe uma boa chance que ela fica onde deve ficar: apenas no papel.

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  • 7. Nidison Silva  |  julho 20, 2011 às 11:24 am

    Isso é péssimo! Imaginem se, por exemplo, lançarem a demo de um novo game do Super Mario.

    Então a gente vai jogando, numa boa, e depois de um certo tempo não vai aparecer mais as moedas. Depois deixam de existir as estrelas, e então, os cogumelos, os canos, e assim progressivamente. Até que chega um momento que só sobra o Mario em um lugar plano, sem nenhum goomba ou efeito sonoro no game.

    Se isso acontecer com as empresas dos games, eles não poderão reclamar se ninguém quiser saber da demo dos jogos.

    Responder

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