Especial: jogos não-licenciados – Parte 2

junho 18, 2010 at 3:00 pm 7 comentários

por maxi

Muito bem, na última parte da matéria vocês viram os ports de jogos de luta piratas lançados para o Nintendo por chineses/taiwaneses. Mas não são só eles que quebram as regras para tentar lucrar com o 8-bits. Hoje veremos empresas bem conhecidas no mercado que faziam o mesmo para se dar bem, sejam elas japonesas ou até mesmo americanas.

Quase todos já ouviram falar das rígidas regras que a Nintendo fazia questão de impor sobre as outras empresas para que elas publicassem seus jogos em suas plataformas. Elas duraram até um pouco depois da chegada do Super Nintendo, quando o sucesso do Mega Drive na américa fez a Nintendo ver que não conseguiria mais segurar essas empresas só para ela como havia feito na última geração e acabou terminando com elas.

Pois bem, ainda antes de 90, com o nes em seu auge, a Atari, que no momento já se encontrava bem reduzida, se dividiu e criou uma segunda empresa voltada para portar e desenvolver jogos para outras empresas chamada Tengen. Ela poderia fazer o que bem entender que nada iria ficar feio para a Atari, e se aproveitou disso em vários momentos. Enquanto que ela também trabalhava legalmente, normalmente portando jogos de arcade e localizando jogos japoneses (da Namco em sua maioria) para os consoles americanos, um dos passa-tempos da Tengen, nessa época, era tentar quebrar o chip de proteção contra cópias ilegais do nes. Ela havia solicitado cópias desses chips na justiça sob o pretexto de estudar os mesmos para abrir uma ação contra as imposições da Nintendo e ficou tentando até conseguir essa quebra.

“Mas porque fizeram isso?”, vocês devem estar se perguntando. Quatro das regras que a Nintendo colocava nas empresas para produzirem jogos eram “vocês podem fazer os jogos, mas nós iremos manufaturá-los em nossos cartuchos”, “os jogos lançados para nossas plataformas só poderão ser lançados para outras plataformas após um período de dois anos”, “vocês só podem lançar até cinco jogos por ano” e “só podem ser publicados jogos aprovados por nosso selo de qualidade”. Agora, com a proteção quebrada, a Tengen poderia fazer os jogos que quisesse, em qualquer quantidade e em seus próprios cartuchos (que se caracterizaram por carcaças pretas, ao invés das tradicionais cinzas da Nintendo americana). Isso gerou um processo da Nintendo que duraria até 94, quando as duas chegaram a um acordo.

Só que isso não foi tudo o que a Tengen aprontou. Entre os ports da mesma que vieram depois disso, haviam vários jogos não licenciados pelas empresas que desenvolveu os mesmos originalmente. Entre eles tivemos, mais notavelmente, um port de Tetris para o Nintendo e os infames ports dos jogos da Sega para o 8-bits da rival.

Tivemos um horrível port do Shinobi de Master Sytem, com cores reduzidas que fizeram o céu ficar rosa e cujos efeitos sonoros matavam qualquer um de rir. Outro deles era um port de Fantasy Zone que também ficou, de longe, a pior versão caseira do jogo, e o mesmo aconteceu com After Burner.

Joe Musashi não combina com rosa.

Porém, a Tengen também adaptou Alien Syndrome para o nes diretamente da versão de arcade, e a conversão deles ficou até boa. Eu diria até que ela fica de igual para igual com a versão oficial lançada para o Master System, que tinha gráficos e música melhores como sempre mas faltaram elementos do original como armas. Também é interessante ressaltar que a Tengen sempre colocava o logo da Sega nos jogos, mesmo não licenciados, talvez por uma questão de marketing imaginando que ajudaria nas vendas se as pessoas pensassem que eram versões oficiais. Os jogos também vinham com caixas e manuais normalmente, embora não contassem com o selo da Nintendo.

O port salvador da pátria da Tengen.

No Japão, a Sunsoft era parceira da Tengen, licenciando os jogos dela para a localização norte-americana e vice-versa, e acabou recebendo esses jogos para publicá-los em território nipônico. Porém, a Sunsoft chegou a reprogramar os mesmos, melhorando em muito os ports. After Burner foi lançado como After Burner 2 e finalmente virou um jogo decente e Fantasy Zone virou Fantasy Zone 2: Teardrops of Opa-Opa (reparem que o título é levemente diferente do original the Tears of Opa-Opa), também melhorado mas ainda bem inferior as demais versões, com paleta de cores fraca e terríveis slowdowns.

Desta vez é a Sun Enterprise que patrocina o caça.

Outras duas empresas que também portaram jogos da Sega mas que ficaram somente no Japão foram a Takara, que lançou um terrível Space Harrier, e a Asmik, que adaptou Altered Beast/Juuouki. Embora pior que as versões oficiais (que já não eram boas), este último tinha o atrativo de três fases a mais com novas transformações e inimigos e não dava o slowdown da versão de Master System. No caso dessas adaptações japonesas, não se sabe ao certo o que aconteceu entre as empresas responsáveis por elas mais a Nintendo e a Sega. Os jogos da Sunsoft contaram com o selo da Nintendo, ausente na versão americana da Tengen, o que nos faz acreditar que a Sega também passou longe desses ports neste caso. Porém outro fato se mostra contrário a essa teoria, que é a inclusão da música tema do After Burner 2 da versão para o Famicon em um álbum oficial com as músicas da série feito pela Sega. A Asmik também já se envolveu em alguns rolos com a Nintendo por causa das normas dela nessa época, mas nada tão sério como no caso da Tengen. Enfim, ainda hoje é discutido se as versões japonesas foram licenciadas ou não.

Nesta versão não vemos o túmulo de Alex Kidd.

Agora, largando a Sega e a Tengen um pouco de lado, outra empresa que lançava jogos sem a aprovação da Nintendo é a Sachen. Enquanto que a maioria dos cartuchos que ela despejava no mercado eram uma porcaria, um deles se destaca por alguns detalhes técnicos e um fato curioso, o jogo foi lançado oficialmente no Brasil. Trata-se do jogo de luta Street Heroes, que foi lançado aqui por uma antiga empresa chamada Milmar que dava suporte os clones do nes que chegavam aqui. Tirando pelo título chupado de Street Fighter, tudo no jogo foi criado pela própria empresa. Não que isso salve a jogabilidade dura, personagens com três cores e o flickering ocasional, mas tinha detalhes técnicos interessantes como vozes digitalizadas (raríssimas em jogos do Nintendo), um completo menu de opções, personagens diferenciados e com a mesma quantidade de golpes, finais próprios para cada um deles, cenários bonitos e um último chefe não escolhível. Street Heroes tem mais cara de um jogo profissional que ficou ruim do que um não licenciado que se saiu relativamente bem.

Não quiseram licenciar? Manda pro Brasil que a gente dá um jeitinho!

Eu ia falar aqui do asqueroso Action 52 da Active Enterprises, mas como esse treco não tem nada de mais além do fato de que hoje é um cartucho raro e o AVGN já fez review dele, vou deixar de lado.

Para encerramos a matéria de hoje, ficamos com o WTF! Rockman X. Sabe-se lá qual empresa fez ele, usaram a tela de título do primeiro Mega Man com a alteração do nome e do modelo do personagem. Ao apertar start, você vai com um mapa para escolher três fases e começa o sofrimento. Você controla um robô que fica jogando bumerangue nos inimigos e só mata eles após uns 4 golpes ou mais, estes posicionados em lugares que deixam sua passagem impossível sem tomar dano. Também existem buracos cuja distância não permitem serem saltados, mas alguns deles não te matam, já que os programadores simplesmente esqueceram de colocar isso, fazendo você caminhar no ar até o outro lado. O jogo é um desastre em tudo exceto nos gráficos, que são bonitos e bem animados.

É isso mesmo que estão pensando, é impossível passar dessa fase.

Semana que vem tem mais, desta vez cobrindo jogos tecnicamente mais “ambiciosos”, por assim dizer. Já imaginaram como seria um port de Shinobi 3 para o Nintendo? Pois é…

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Podcast de desenvolvedores de games 5 lutas de Marvel vs Capcom 3

7 Comentários Add your own

  • 1. Robson França  |  junho 19, 2010 às 6:26 pm

    Ótimo texto, Maxi. Só uma correçãozinha: a Tengen foi mais safada ainda em relação ao 10NES (o chip anti-pirataria do NES). Para ter acesso aos dados do chip, ela processou a Nintendo alegando que o 10NES violava patentes dela. Os advogados da Tengen tiveram a cara de pau de solicitar as especificações do chip para “verificar” se realmente o chip violava alguma patente (obviamente, não). Com as informações obtidas da leitura dos documentos do processo, os engenheiros da Tengen conseguiram fazer jogos não-licenciados para o NES.

    Abraços

    Responder
    • 2. maxi2099  |  junho 19, 2010 às 8:41 pm

      Ah, então a ação já estava sendo movida quando solicitaram? Realmente, precisavam era de óleo de peroba.

      Responder
  • 3. Pedro Ivo  |  junho 21, 2010 às 10:36 pm

    Tô adorando esse especial, sério mesmo. É cada coisa que acontece por baixo dos panos da indústria gamística que a gente nem imagina!
    Aproveitando: tem alguma chace da série “Velhos bons tempos” retornar? Eu adora aquela série, era uma das coisas que eu mais gostava de ler aqui no Warpzona!

    Responder
    • 4. maxi2099  |  junho 22, 2010 às 9:50 am

      Se o Toejam (antigo Edsom) sobreviver aos problemas pessoais que estão mantendo ele afastado dos posts sim.

      Responder
  • 5. Toe Jam  |  junho 22, 2010 às 4:29 pm

    Oi pessoal,

    estive com vários problemas de saúde nos últimos dias mas graças a Deus estou me recuperando. A boa notícia é que ficar internado te dá muito tempo para pensar nas coisas, e neste período arrumei várias idéias para novas colunas Velhos Bons Tempos.

    Devo voltar a postar assim que recuperar a saúde.

    Abraços a todos.

    Responder
  • 6. Especial: jogos não-licenciados – Parte 3 «  |  junho 25, 2010 às 6:02 pm

    […] uma semana, mais uma parte da matéria. Conforme prometido na semana passada, a partir de hoje iremos ver ports de jogos originalmente muito mais avançados que as capacidades […]

    Responder
  • 7. Especial: jogos não-licenciados – Parte 4 «  |  julho 2, 2010 às 5:09 pm

    […] e arcade portados para o Nintendo. Comecemos pelos dois feitos pela Sachen, a mesma produtora de Street Heroes. Gaiapolis, um homem dragão ataca vários […]

    Responder

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