WarpReview: Demon’s Souls | PS3

julho 20, 2010 at 7:48 am 9 comentários

por Barry Burton

Se Zelda tivesse realmente se tornado um jogo “adulto”, no sentido de sua temática ter amadurecido, seu tom ficado mais sombrio, seus monstros mais assustadores e, principalmente, sua dificuldade elevada a níveis extremos, fatalmente haveria de se chamar Demon’s Souls.

Não que apenas a exploração de calabouços e um refinado sistema de combate estejam aí, mas é certo que sua estrutura básica foi pavimentada com base nos clássicos jogos de exploração/recompensa. A vontade de verificar a cada esquina se não há ao menos um item escondido ou uma passagem secreta que o leve a novos horizontes permeia toda a jornada por Boletaria e seus reinos vizinhos.

Boletaria é um reino amaldiçoado por conta de um rei ambicioso, e fadado a ser devorado por demônios de toda estirpe. Não há espaço para você bancar o herói: tudo que havia para acontecer de ruim já aconteceu. No máximo, você poderá impedir que o mal se alastre ainda mais.

Deixando o jogador sempre inseguro sobre se o que está fazendo é certo ou não, Demon’s Souls é corajoso ao ponto de possuir um auto-save indefectível, impossível de ser copiado. Gastou ou jogou fora um item importantíssimo? Problema seu. Sem querer feriu ou matou aquele padre que poderia te ajudar? Viva com isso até o final do jogo. Isso, claro, reflete-se em suas ações ao longo do mesmo, que progressivamente se revela mais acinzentado à medida em que você se aproxima do final. “Estou mesmo fazendo a coisa certa?” é a pergunta que você repetirá a si mesmo para qualquer iniciativa.

Continue lendo após o pulo!

A dificuldade, longe de ser frustrante, é o motor que faz com que você se aventure com mais afinco. Porque cada morte poderia ter sido evitada; cada golpe, bloqueado; cada passo, medido. A sensação de “se eu não tivesse feito isso” é a que se tem quando seu personagem agoniza, da primeira ou da quinquagésima sétima vez que se enfrenta o esqueleto dourado com o cutelo. Até mesmo quando você tem plena confiança em seus poderes e habilidades, um mero grupo de escravos zumbis pode massacrar seu personagem se você não lhes prestar a devida atenção.

À moda de Super Mario Galaxy, o jogo possui um mundo principal, Nexus, que se conecta a todos os outros. Em sua aparente segurança você terá acesso a maior parte dos personagens coadjuvantes, que podem lhe ajudar ou não.

O gancho do jogo são as almas (souls) que são coletadas de qualquer criatura que você elimine. Elas servem a todos os propósitos: comprar itens, fazer upgrades em suas armas, aprender magias e até mesmo subir de nível. O problema é que, quando você morre, todas as suas almas coletadas se separam de você. Digo “se separam” porque você não as perde; elas ficarão a poucos passos de distância do lugar em que você morreu. Se você conseguir retornar ao lugar sem morrer de novo, pode recoletá-las. Você está em certa vantagem por saber o posicionamento de todos os inimigos e armadilhas, porém, todos eles estarão lá lhe esperando. E provavelmente conseguirão lhe matar novamente.

Ao morrer, você não verá a tela de Game Over. Ao invés disso, você simplesmente perde seu corpo físico, volta para o Nexus e passa a vagar como alma, visivelmente enfraquecido. Para recuperar seu corpo, você deve eliminar um chefe – aqui chamado de demônio -, usar um item muito raro ou completar um dos objetivos do multiplayer.

O multiplayer é bastante singular. Você não pode chamar um amigo específico, e seu grupo é limitado a você e dois companheiros mortos em seu “mundo” de origem. O que parece um retrocesso para os dias atuais na verdade é ligado ao contexto do jogo e incrivelmente atraente. Primeiro, você realmente tem a impressão de estar sozinho, ajudando pobres almas a reganharem seus corpos quando matarem um demônio. Segundo, quando vivo, você fica vulnerável a invasões e precisará de todo tipo de ajuda. Afinal, o “invasor” nada mais é do que outro jogador morto que invade o mundo de alguém vivo para tentar eliminá-lo e conseguir seu corpo de volta.

Você também pode interagir com todas as “dimensões” dos outros jogadores através de um brilhante sistema de mensagens. A qualquer momento, e em qualquer lugar, você pode escolher uma dentre as diversas mensagens pré-estabelecidas pelo jogo e colocá-las no chão, para que qualquer outro jogador no servidor possa lê-las. Novamente, a limitação funciona a favor do jogo: além de manter tudo focado no clima, nenhuma mensagem fala coisas óbvias que possam facilitar demais (por exemplo: “use tais e tais armas para matar o seguinte chefe, tomando cuidado com tais e tais ataques” ficaria algo como “use fogo no próximo inimigo” e “cuidado com suas esquivas”). Como se não bastasse, um sistema de recomendação que recupera toda a energia do mensageiro incentiva a se colocar apenas mensagens úteis, uma vez que mensagens não recomendadas somem com o tempo.

O mais interessante disso tudo é que, em cada servidor, há um medidor para saber quantas pessoas estão agindo de boa e de má fé, e isso influencia o mundo real de jogo de todos aqueles que estão jogando no momento. Um mundo com tendência ruim possui inimigos mais fortes, e até alguns monstros inéditos, da mesma forma que um mundo com tendência boa possui inimigos mais fracos e algumas passagens, antes fechadas, abertas.

É quase um passe de mágica notar a hora em que Demon’s Souls literalmente suga sua alma, tornando-o um obcecado por ver o que há em frente, como superar o próximo desafio. É incrível como a From Software, uma empresa praticamente desconhecida no Ocidente, consegue captar com maestria tudo o que faz um jogo ser bom, de uma forma que muitas empresas tradicionais como a Square-Enix, a Sega e a Konami parecem ter se esquecido.

[ CONCLUSÃO ]

Desafiador sem frustrar, sombrio e viciante, Demon’s Souls é uma jóia rara no meio de tantos blockbusters que dizem sempre a mesma coisa.

horrível |  ruim | fraco | legal | bom | [ EXCELENTE ]

Game: Demon’s Souls
Plataforma: Playstation 3
Autor da análise: Rafael “Barry” Ventura
Estilo: RPG de ação, exploração
Desenvolvedora: From Software
Produtora: Atlus
Jogadores: 1 a 4 (dois aliados e um inimigo)
Quanto jogou: 56 horas de jogo. Após terminar, jogou mais 10 horas no modo extendido, no qual o jogo é AINDA MAIS DIFÍCIL!

Quer entender melhor nosso sistema de avaliação? Então clique aqui!

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Nossa nova WarpBar©! Feliz dia do Amigo!

9 Comentários Add your own

  • 1. maxi2099  |  julho 20, 2010 às 10:05 am

    Cada vez mais eu acho esse jogo extremamente parecido com PSO.

    Responder
  • 2. Cesar  |  julho 20, 2010 às 2:02 pm

    Acho que no Zelda, a temática é intacta, então se mudar ou “amadurecer” passará a ser outra coisa. O mito do herói, as aspirações, a esperança, o equilíbrio entre o bem e o mal e um toque de fantasia fazem do universo Zelda algo incomparável. Dessa forma, não teria lado negro nesse jogo, sem uma pontinha de esperança de que tudo pode melhorar.

    Ainda vou passar pelo Demons Souls, mas a impressão que tenho é que se trata da versão game daqueles RPG´s de tabuleiro com dados de 8, 12 lados e com todos os elementos daquela época dourada. Um RPG true, com dragões, demônios, crenças, armaduras e espadas, sem facilitar a vida do jogador. Neste sentido, acredito que deva ser um jogo fiel e digno dos bravos

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    • 3. Rafael "Barry" Ventura  |  julho 20, 2010 às 2:09 pm

      Não falei tanto sobre a ambientação em si, mas buscando a jogabilidade de Zelda em um novo ambiente =]

      Responder
  • 4. Uma boa notícia que na verdade é uma má notícia «  |  julho 23, 2010 às 9:38 am

    […] poderíamos pensar que o jogo funciona perfeitamente sem suas modalidades online (e continua sendo um jogão mesmo assim), é estranho pensar que uma de suas principais características tenha prazo de […]

    Responder
  • […] poderíamos pensar que o jogo funciona perfeitamente sem suas modalidades online (e continua sendo um jogão mesmo assim), é estranho pensar que uma de suas principais características tenha prazo de […]

    Responder
  • 6. TGS 2010: Sucessor de Demon’s Souls «  |  setembro 17, 2010 às 3:16 pm

    […] apresentaram Project Dark (provavelmente um título provisório), o sucessor espiritual de Demon’s Souls, jogo de PS3 que até ganhou um de nossos “melhores do […]

    Responder
  • 7. Primeiro teaser de Project Dark «  |  setembro 21, 2010 às 1:45 pm

    […] divulgado o primeiro teaser de Project Dark, o sucessor espiritual de Demon’s Souls. Confiram a […]

    Responder
  • 8. Victor  |  outubro 18, 2010 às 2:44 pm

    Comecei a jogar demon’s Souls a uma semana e estou viciado! O jogo é maravilhoso! Foi amora a primeira hora de jogo!
    Saber que em março do ano que vem os servidores vão fechar dói no coração.

    Responder
  • 9. Iori Yagami™  |  janeiro 19, 2011 às 11:25 am

    Se o modo online do game fosse melhor explorado, com certeza teria sido um game AAA+. Mas do jeito que ficou, para mim, é somente nota 8.0. Abraços, caro Barry.

    Responder

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