Velhos Bons Tempos

dezembro 9, 2011 at 7:47 pm 4 comentários

por Toe Jam

Velhos Bons Tempos

Quando iniciei esta coluna, fruto de uma conversa com o Ryunoken, jamais imaginei que escreveria justamente esta história. Embora já tivesse o citado indiretamente em outros posts, nunca tinha contado um caso dele diretamente.

Contudo, devido a tudo o que ocorreu nos últimos meses, num certo dia eu soube que teria que fazê-lo. Relutei até agora, mas peço uma última vez a paciência de todos vocês para este velho e cansado escriba contar mais um ‘causo’ após o salto.

Ryu no Ken?

– Vamos no Ryunoken!

Foi com este convite-intimação que tudo começou, 17 anos atrás…

Conversando sobre videogames e quadrinhos com um amigo, por algum motivo que realmente não lembro qual foi ele resolveu que deveríamos ir à casa do Ryunoken, que ficava a menos de 5 minutos à pé (carro é um luxo muito recente para mim) de onde estávamos. Aceitei de pronto (afinal, as únicas preocupações que tinha na ocasião eram aquelas descritas na primeira coluna…) e partimos.

Fiquei pensando com meus botões: quem teria um nome chamado Ryunoken? Seria ele um japonês? Para minha surpresa, ao chegar ao portão, meu amigo gritou “André, André!”, até que fomos recebidos por um rapaz de cabelos, pele e olhos claros, de óculos, que vim a descobrir tempos depois que sua família tinha origens portuguesas (o que estava ligado a sua escolha de time, o Vasco da Gama).

Na ocasião fiquei com vergonha de perguntar o porquê do apelido, e arrependo-me hoje, pois nunca soube o que significava. As buscas do Google, em sua maioria, leva a trabalhos, perfis e dados do próprio André, o tradutor Japonês-Português também não colaborou… Ficou para mim a mesma impressão que tive na época, talvez decorrente do vício que tinha no Street Fighter 2: “Ryu, não o Ken..”

A volta dos que não foram…

Aquela conversa mostrou muito que o André era e viria a ser. Um sujeito de um humor rápido e imprevisível, de uma inteligência aguçada, com gosto para o diferente, exótico, não-midiático. Era um colecionador nato, e nunca deixou de sê-lo. Conhecia jogos que saíam em edições limitadas no Japão em tempos que a internet ainda engatinhava, lia fanzines e publicações de tiragem limitadíssima, tinha um conhecimento praticamente sem fim da cultura nerd-pop. Aliás, minha memória me acusa o motivo do encontro: tinha algo a ver com o Catuámanga, zine que ele e meu amigo estavam envolvidos.

O interessante é que já nos conhecíamos de um pouco antes: fizemos a quinta série na mesma escola, de modo que não era ali o nascimento de uma amizade, mas a retomada de uma que foi mas voltou…

O início do fim

As características acima citadas tornava o André uma pessoa de personalidade forte e intrigante, que sempre nos deixava sem saber qual seria a sua próxima tirada, idéia, piada ou comentário, tornado as nossas conversas e encontros eventos dos mais interessantes.

Porém outro fator que me chamava a atenção, na minha imaturidade, era o fato dele ser portador de uma doença que eu não conhecia pessoalmente, só de nome: diabetes. Talvez o que tenha me marcado mesmo não tenha sido a doença em si, mas o trecho de diálogo que ocorreu neste mesmo encontro, relatado abaixo:

Ryu põe as mãos nas costas, com expressão de dor.

– O que foi? – questiona o outro amigo.

– Nada não. (O Ryu nunca reclamava de dores ou admitia estar passado mal, e não gostava que perguntassem ou mostrasse preocupação com ele).

O outro amigo insiste e ele cede.

– Não é nada, só uma dor nas costas.

– Começou agora? – perguntei.

– Não – ele respondeu. Tem a ver com a doença.

– É normal doer? – indaguei.

– Doe todo santo dia – foi a resposta.

E esta dor, infelizmente, o acompanhou, e mesmo que ele não nos dissesse ou demonstrasse, lá estava.

Bons tempos

Na ocasião deste encontro eu estava numa fase de transição forte: estudava música, tinha arrumado o primeiro emprego, passei a me preocupar com o vestibular. Meu tempo para quadrinhos, RPG e videogames diminuia, mas as ocasiões em que eu ia conversar com meu amigo Ryunoken eram verdadeiras edições da Velhos Bons Tempos em tempo real, ao vivo: lembrávamos de jogos antigos, discutíamos arcos e minisséries de quadrinhos, passávamos por política e variedades. Enfim, eram um alento no meio de tantas aflições e incertezas.

Naturalmente não só de conversas que eram pontuados estes encontros: quase sempre tinhamos que jogar alguma coisa, e por jogar entenda-se jogar videogueime, como ele gostava de falar e escrever. De fato, uma combinação bastante comum era conversar enquanto jogavámos. Aliás, dado a quantidade de conversas, talvez jogássemos um pouco enquanto conversávamos…

O tempo passa, o tempo voa…

Foi com muita alegria que, ao ingressar na universidade, tive a companhia do Ryu nos ônibus, nas voltas para casa. Eu estava na área de ciências exatas, ele nas belas artes, mas isso não nos distanciava, mas sim apontava para uma tendência: de imaginar projetos e atividades que poderíamos fazer junto, somando nossos conhecimentos (tipo de coisa e conversa que acabou levando a criação do Warpzona…).

Infelizmente estas boas viagens (que eram longas por conta do trajeto de mais de 30 km e de um trânsito infernal, mas curtas para cobrir todo assunto que tínhamos) não duraram muito tempo, porque a doença já citada o atrapalhou em seus estudos, desencontrando nossos horários. Contudo, já jovens adultos, ambos eramos graduados em nossas respectivas áreas.

A gente nasce, cresce, fica bobo e casa…

A frase acima, a qual ouvi de um professor de Geografia, leva à sequência natural dos fatos: finalizados os estudos, era hora de trabalhar e constituir família. Esta etapa o Ryu cumpriu bem antes de mim, e o casamento dele acabou me influenciando diretamente em uma importante fase de minha vida.

Antes de prosseguir, uma ótima do Ryu: como não era chegado a fazer o que todos faziam, ao discutirmos qual seria o repertório de músicas da sua cerimônia de casamento, realizada no religioso em igreja católica, ele disparou:

 – Rapaz, tu toca em missa e tudo sabe o que o padre autoriza ou não. Então pode escolher à vontade que para mim está bom.

Conhecendo o Ryu, falei:

– De fato o padre não autoriza música que não seja religiosa na cerimônia, mas tem um jeito de tocar “aquela” se você quiser…

– Tem mesmo? – ele se animou. – Se puder então toca.

– Fechado! – confirme, e rimos junto já ali.

Por conta desta conversa, na momento da assinatura dos papéis, onde os noivos e as testemunhas assinam e o casamento já está consumado, ouvia-se como música ambiente, ao som de piano, o tema dos Changeman, na versão instrumental, mais lenta… (P.S.: e esta não foi a única vez que os amigos me pediram algo do gênero: já toquei uma música do Castlevania: Symphony of the Night na entrada do noivo de um certo leitor do Warp…)

Londres

Voltando à influência do casamento do Ryu na minha vida: ele morava, com sua esposa, em uma outra cidade satélite do Distrito Federal, a qual tinha se mudado alguns anos antes. Ao saber que eu iria finalmente comprar um apartamento e morar sozinho (entre áspas: com meu irmão Dudu, aqui do Warp também), ele tanto insistiu que eu acabei abrançando a idéia e comprei lá, onde ele denominava Londres, por conta do ‘fog’, como dizia ele…

Os nove meses que residi lá foram de fatos, bons tempos: moravamos novamente próximos uns aos outros: o Tutu (o noivo que citei antes), o Dudu (meu irmão) e o Tio Dedé (como os sobrinhos do André o chamavam) e eu (que era o único que não tinha um apelido composto por duas sílabas repetidas…). De quinze em quinze dias era sagrado: íamos nas sextas à noite para a casa do Ryu e passávamos a noite jogando Culdcept, do PS2. Eram horas e horas de boa risada, todos em busca da vitória que quase sempre já tinha destino certo: o Dudu, que segundo o André, era a única pessoa que ele conhecia que já tinha zerado um MMORPG…

De certo estas não eram as únicas oportunidades que nos reuníamos, mas era o encontro de amigos que nos mantinha sempre em contato, mesmo que as coisas ficassem apertadas por conta dos compromissos profissionais, familiares ou pessoais de cada um.

Estes bons encontros terminaram quando finalmente também abracei os laços do matrimônio e me mudei para outra cidade satélite. Mas meus três bons amigos estiveram presentes neste importante dia da minha vida, em posição de destaque: todos os três foram  padrinhos meus na cerimônia…

Keep walking…

Devido ao aumento das responsabilidades por conta da vida adulta, passamos a nos encontrar com menos frequência, e geralmente os encontros aconteciam de três formas:

1) Telefonemas: quando ligávamos uns para os outros passávamos umas boas horas jogando conversa fora, discutindo posts, seções e projetos para o Warpzona, falando sobre emprego e a situação do Brasil e por aí vai. Quase sempre terminávamos com uma promessa minha de ir lá vê-lo pessoalmente, e que eu cumpria numa frequência menor do que gostaria…

2) Nerdssários: quem conhecia o André só de internet geralmente não sabe o que eram os nerdssários. O André assim rotulava suas festas de aniversário, muito diferente das comuns: os amigos se reuniam, e além de cada um levar os comes e bebes que podiam, cada um levava uma “diversão”: videogames, cardgames, DVDs, televisões, máquinas de arcade alugadas, bandas para Guitar Hero e Rock Band, home theathers, …  Os nerdssários geralmente começavam nas sextas-feiras à noite e terminavam no domingo à tarde. Muita gente ia, volta para a casa, ia de novo, e assim por diante, sempre jogando muito, rindo bastante, se divertindo. Nosso amigo geralmente não gostava do fato de estar fazendo aniversário, mas sempre se agradava dos Nerdssários, até por que era uma ocasião em que todos os amigos se viam e reviam…

3) Hospitais e UTIs: essas eram as ocasiões onde a dura realidade da doença se apresentava. Em mais de uma oportunidade fui visitar o Ryunoken em UTIs. Ele não gostava de hospitais e muito menos da condição que a doença o impunha, mas era de poucas reclamações. Sendo um homem de saúde frágil mas de espírito forte, os amigos já tomavam como certa a sua recuperação, por maiores que fossem os sustos. Pensávamos que assim seria desta vez…

Final Round

Os últimos dois anos foram deveras difíceis para o Ryunoken, como ele mesmo relatou em parte no blog irmão do Warpzona, o Espada do Dragão. Enquanto sua doença avançava, o casamento regredia, até que a separação se consumasse. Convicto de suas idéias e firme em suas opiniões, não quis retornar a casa de sua mãe, e morou um tempo em companhia de uma amigo, outra boa parte sozinho.

Ele que tanto admirava os games via em sua vida um paralelo com seu hobby: sabia estar enfrentando um estágio difícil, com poucos recursos, life reduzindo progressivamente, sem especial. Como vencer nesta situação, que parecia impossível de ser contornada? Uma grande esperança seria o transplante duplo de rins e pâncreas, e parte da agonia era a espera de um pâncreas compatível (o rim seria doado pelo irmão).

Sendo um pessimista nato, ele via a possibilidade, mas com reservas. Se informava das consequências do transplante, procurava se informar sobre os procedimentos (tanto é que se antecipou nos preparos para receber a hemodiálise quando se tornou inevitável fazê-la). As duras situações que passou o deixaram maduro, ciente de seus erros e acertos, do que importa e não importava na vida. Eu era mais otimista, e tinha muita fé que meu amigo teria uma ‘segunda chance’, que tornaria a ter saúde para viver bons anos em paz.

Countdown

Só entendi este amadurecimento um tanto depois. Em meados de outubro o Ryu voltou com muitas dores de uma sessão de hemodiálise, e deu entrada no hospital à noite. Três dias depois um amigo em comum me avisou que ele estava na UTI, e que desta vez o quadro era diferente. As informações eram imprecisas, ele fala em paradas cardiorespiratórias e AVCs. As paradas foram confirmadas depois, e o AVC não ficou claro para mim se ocorreu ou em que intensidade. Naturalmente fui ao hospital, como de costume, para vê-lo, já confiante de sua alta em breve.

Lá chegando vi que de fato o cenário era outro: muitos amigos que não via há anos lá estavam, semblantes fechados, olhos marejados. Poucas palavras, todos aguardando notícias. Infelizmente foi nesse cenário pouco propício que pude me aproximar de seus familiares (pai, mãe e irmãos), todos pessoas do bem, de caráter e personalidade. As notícias não eram animadoras: quadro constante, estado de coma não induzido, esperar para ver.

Nas semanas seguintes passei a visitá-lo ao menos duas vezes por semana. O hospital só autorizava 3 visitas por dia, então ficava na recepção mesmo, aguardo o final do horário, para que algum familiar aparecesse e desse as boas novas. A família, muito gentilmente, me ofereceu a oportunidade de subir em uma ocasião. Infelizmente não pude chegar em tempo, mas sou agradecido pela compreensão e amizade que tiveram comigo.

Da última vez que lá estive as notícias já eram melhores: ele estava recobrando os reflexos, havia perspectiva de uma melhora lenta, gradual, porém melhora. Ele sairia desta e venceria mais uma vez, estava certo disso.

Victory!

Para minha triste surpresa recebi, na manhã do dia 09 de novembro (exatamente um mês atrás) um telefonema com a bomba: o André tinha falecido. Fiquei sem entender e acreditar, queria detalhes. Ainda não se sabia ao certo a causa. Poucas horas depois a família me informou o local e hora do sepultamento.

Quando lá cheguei, passei a entender uma série de coisas que antes não entendia, sendo a primeira delas a Canção da América, do Milton Nascimento: “e quem cantava chorou, ao ver seu amigo partir…”. Ao vê-lo chorei como menino novo, soluços, lágrimas incontidas. Uma das piores coisas da Terra tinham me acontecido: perder o melhor amigo. O tipo de coisa que não dá para saber o que é até que se passe por ela. Meu texto não pode e nem fará justiça a situação que passei, e não eu apenas: todos os amigos presentes e, principalmente, a família.

Ainda não aceitava o fato vendo-o sendo finalmente sepultado, levando dentre as homenagens uma camisa que ele vestia com frequência (uma  verde, com o cogumelo de 1-up do Mario), que ele não tinha vencido. Mais uma vez em prantos, entendi: ele tinha vencido!

Meu erro tinha sido não compreender o que seria uma vitória naquelas circunstâncias. Não era simplesmente sobreviver, mas sim passar pelo caminho que Deus traçou para ele  em vida com dignidade. E ele o fez como poucos o fariam: mesmo se divorciando contra sua vontade, jamais falou mal da esposa, mesmo nas horas de maior tristeza; recusou o rim do irmão, ciente das consequências do transplante para o irmão e do não-transplante para ele (tanto que a bactéria que o levou a óbito fora contraída na diálise, que ele não faria com um rim novo).

Onde muitos esbravejariam, optou pelo silêncio; onde outros xingariam, optou pela reflexão; e mesmo que os outros não concordassem, foi fiel ao que acreditava até o fim.

O menino vira  homem

A morte do André, fato dos mais tristes da minha vida, veio acompanhada de um fato dos mais felizes: meu primeiro filho nasceu quatro dias depois. Os dois extremos, fatos marcantes na vida de um ser humano, a partida e a chegada de uma vida, me fizeram deixar de ser um menino para ser um homem. O amadurecimento do André agora fazia sentido: os fatos da vida, bons ou ruins, nos levam a discernir o que realmente importa, quem são nossos amigos, que do pó viemos e ao pó voltaremos.

E o nascimento do meu filho acabou por realizar um desejo do André: ele queria que eles comemorassem o Nerdssário juntos, e, no dia 13 de novembro deste ano, o André completaria 32 anos…

A tristeza de sua partida me foi deveras grande, e ainda o é. Quis escrever algo, prestar alguma homenagem, mas só conseguir fazê-lo agora, um mês após sua partida. O pensamento que aperta a garganta é que, daquele dia 09 em diante, todas as lembranças boas que tinha dele agora passaram a ser bons tempos, velhos bons tempos…

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Adeus, Ryunoken. Adeus, Warpzona.

4 Comentários Add your own

  • 1. cachorro verde  |  dezembro 12, 2011 às 12:17 pm

    Mesmo sem conhecer as pesaoas envolvidas, devo parabenizar pela sinceridade e sensibilidade do texto.

    Responder
  • 2. Naninho  |  dezembro 15, 2011 às 9:58 pm

    Depoimento de Rita de Cássia – Transplante Duplo: http://naninho.blog.br/saude/transplantes/depoimento-rita-transplante-duplo.html

    Responder
  • 3. Guilherme  |  dezembro 18, 2011 às 3:02 am

    Muito bom. Espero que o Warpzona continue, pelo menos, com alguns updates esporádicos.

    Abraços,
    Guilherme

    Responder
  • 4. ErivandoXP  |  fevereiro 21, 2012 às 2:20 pm

    Primeira vez que acesso o site… Li a história toda… É emocionante, nos faz refletir em muitas coisas… Sem palavras…

    Um abraço

    Responder

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